?Cesar Urnhani conhece como poucos o ramo da validação veicular. Com quase 30 anos de experiência, o piloto de testes do programa Autoesporte, exibido aos domingos, na TV Globo, continua altamente requisitado pela indústria. Ele se especializou em “sentir” as menores minúcias de um veículo e traduzi-las em relatórios rigorosos. Um veredicto dele pode mandar o projeto de volta à prancheta ou, até mesmo, mudar o rumo de um lançamento. 

Existe diferença entre piloto e motorista de testes?
Tem. Motorista de testes é um cara com sensibilidade, que faz um bom relatório estático-dinâmico, com o carro parado. Deve observar toda a lataria. Saber, por exemplo, se o movimento de uma porta tem alguma interferência de coluna. Se uma mangueira tem interferência com alguma parte do carro que venha furar essa mangueira. Depois dessa inspeção estática, ele submete o carro a uma rota pré-determinada, estabelecida com base nos componentes que você quer testar. 

Todo piloto de testes um dia já foi motorista de testes?
Com certeza. Quando o cara é motorista de testes e faz esse relatório mais elaborado, a indústria acaba o selecionando. “Aqui temos um talento”. O piloto de testes é um profissional ligado mais à performance do que à durabilidade. Isso vale para tudo: carro, ônibus, caminhão, motocicleta.

Esse profissional precisa ter muitos conhecimentos na área de mecânica?
Quando você tem esse conhecimento (adquirido pela “mão na graxa” ou na faculdade de engenharia), se vira o volante, sabe exatamente o que está acontecendo com todo o sistema até chegar aos pneus em contato com o chão. Esse entendimento de como funciona é fundamental. Quando você escuta um barulho, sente uma folga, já pode imaginar em que ponto está o problema. “Ah, era essa buchinha aqui”. Isso gera um aprendizado. Toda vez que sentir sintomas iguais, você saberá o que é. 

A profissão é perigosa?
Ao longo de 30 anos, eu perdi seis amigos. Não por acaso, amigos que testavam ônibus e caminhões. Veículo pesado, você testa em um mindset diferente. Por isso, o piloto de testes tem de ser um pouco avesso à bebida, não pode fumar. A gente faz testes clínicos de seis em seis meses. Entre eles, o de esteira, para ver o ritmo cardíaco. Faz eletroencefalograma. Passa por psicólogo. O piloto de testes tem o seu corpo como uma ferramenta que testa o carro. Então, ele tem que estar em perfeitas condições para não cometer nenhum acidente, não se machucar nem machucar ninguém. 
 
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Por que os testes de caminhão são os mais arriscados?
Quanto a caminhões e ônibus, você não precisa levá-los tanto ao limite, porque o que importa é o rendimento quilométrico que o pneu dá e a execução de manobras bem sutis de definição de trajetória. No carro, você faz manobras mais ousadas. Quando um caminhão ameaça tombar, ele dificilmente volta ao controle do piloto. 

Qual é a relevância da fase de testes para a indústria automobilística?
Sabemos que o método dos elementos finitos, ou seja, os testes feitos em computador são bons e nos ajudam muito. Antigamente, eu precisava fabricar dez componentes para testar. Agora não é mais necessário, pois faço testes de estresse em computação, e eles já excluem sete componentes que dariam problema por algum motivo. Mas o ser humano nunca vai ser substituído. Qualquer teste feito em computador tem uma capacidade analítica X. A humana é 10X. A capacidade do ser humano de interpretar é infinitamente maior. O ser humano consegue saber o que incomoda o ser humano. Por exemplo, ruído. A máquina dirá se ele é alto ou baixo, se é grave ou agudo. O ser humano saberá reconhecer, independentemente do nível, qual frequência incomoda.

Depois dos testes, como você relata suas percepções aos engenheiros?
Existem relatórios padronizados dos itens a serem testados, e você vai dar uma nota para aquele comportamento. As notas vão de zero a dez, sendo seis o limite de aceitabilidade. Quando um piloto de testes dá uma nota de sete a oito, isso significa que está bom. E as notas 8 a 10 não existem porque, se houver uma nota muito alta, pode-se esperar uma nota de contraponto em outro atributo. Por exemplo: um carro com resposta de direção com a nota nove, provavelmente, terá três em conforto. O piloto de testes é quase um psicólogo mostrando o comportamento do carro. Se ele é muito nervoso, se é calmo, se é perigoso. E não adianta só dizer que é ruim ou bom – você precisa gerar uma tendência no engenheiro que decide se vai mexer na massa, na barra, na geometria, etc.

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