No cenário global, o indicativo é de uma desaceleração da economia. Tensões comerciais entre Estados Unidos e China, o crescimento do protecionismo e a expectativa de desaceleração na economia de grandes potências estão entre as razões para esse fenômeno. 

Isso, entretanto, não deve pesar decisivamente para o desempenho econômico do Brasil, segundo o economista Thovan Tucakov, da LCA Consultores – Soluções Estratégicas em Economia. “Nosso crescimento continuará a ser ditado mais pelo que acontece na seara doméstica”, avalia ele, que ministrou uma palestra na sede da CNT (Confederação Nacional do Transporte), nessa quarta-feira (31), para falar sobre as perspectivas da economia brasileira. Nessa entrevista, Tucakov faz uma análise do cenário internacional e dos seus impactos sobre a economia brasileira; aborda os fatores que poderão impactar o desempenho do PIB brasileiro nos próximos anos; e comenta a respeito da decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de reduzir a Selic, taxa básica de juros, para 6% (a menor desde o início da série história do BC, em 1986). 


Quais são as principais características no cenário internacional que impactam as projeções de crescimento da economia global?

A economia global tem mostrado sinais cada vez mais claros de desaceleração. Alguns fatores estão por trás disso, elencados por ordem de importância: a escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que têm caminhado para uma espécie de "guerra fria" tecnológica (vide o caso da Huawei – maior fornecedora de equipamentos para telecomunicações do mundo); a expectativa de diluição do pacote de estímulo fiscal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; a expectativa de desaceleração cíclica dos Estados Unidos (afinal, a economia americana se encontra em um ciclo de ascensão, ainda que gradual, há dez anos - desde a saída da crise de 2008/09); os sinais de desaceleração na economia europeia, associado também a um ritmo de crescimento mais fraco da demanda chinesa (que, por sua vez, está ligado ao crescimento mais fraco do PIB chinês devido ao aumento das disputas comerciais com os Estados Unidos); e um eventual aumento de volatilidade em 2020 associado às eleições presidenciais nos EUA. Nesse sentido e em virtude da desaceleração do comércio global em função dos fatores citados, o FMI, em sua divulgação de julho do World Economic Outlook, rebaixou as projeções de PIB global para 2019 e 2020 (de 3,3% para 3,2% e de 3,6% para 3,5%, respectivamente). É válido destacar que, sob a condição de que não haverá uma nova escalada das disputas comerciais, o nosso cenário prevê uma moderação das taxas de crescimento global, e não um período recessivo como ocorreu em 2008/09.


Esse cenário de desaceleração e de protecionismo não pode impactar a recuperação da economia brasileira?

Na avaliação da LCA, o ambiente doméstico (político e da política econômica) seguirá como principal determinante da trajetória de crescimento/recuperação da economia. Ou seja, embora exista uma expectativa de desaceleração do PIB das principais economias, as projeções do FMI ainda apontam para uma variação do PIB global em 2020 maior que a esperada para 2019. Desse modo, partindo da premissa de que as relações comerciais entre Estados Unidos e China não irão caminhar para algum evento disruptivo, a percepção é que a contribuição do cenário internacional deve ser relativamente neutra em 2020.


Qual pode ser o impacto da redução da Selic neste e nos próximos anos? 

O Banco Central optou por reduzir a taxa básica de juros em 0.5 ponto percentual, iniciando o ciclo com uma redução até maior do que esperávamos. Nossas simulações indicam que, para o juro básico ficar em um patamar estimulativo do ponto de vista da atividade, esse deveria estar hoje em algo entre 4,75% e 5,25%. Dessa forma, o impacto da redução de juros sobre a atividade econômica vai depender do orçamento total de corte. Se o Banco Central cortar mais rápido e com um orçamento que coloque a taxa de juros próxima do patamar que estimamos como estimulativo, os impactos tendem a ser bem positivos na atividade e já devem ser sentidos até o final do primeiro semestre de 2020. Hoje estimamos que a Selic será rebaixada até atingir 5,25% no final de 2019, se mantendo nesse patamar ao longo de todo o ano de 2020. Olhando para o comportamento da inflação e das expectativas de inflação, minha impressão é que o Banco Central pode ir até além disso.


Você menciona que a projeção de redução de juros pelo FED (banco central americano) poderia gerar a atração de investidores para o Brasil. Isso será possível mesmo com as projeções do mercado, que indicam uma redução gradual dos juros aqui? E esses investimentos, dada a sua volatilidade, seriam capazes de gerar, efetivamente, impactos positivos no PIB brasileiro?

Do ponto de vista dos países emergentes, uma redução das taxas de juros nas economias desenvolvidas é positiva no sentido de redirecionamento dos fluxos de capitais, buscando retornos mais atraentes. Mesmo com uma expectativa de redução de juros no Brasil, estamos falando de muitos papéis mundo afora, inclusive de longo prazo, oferecendo retornos negativos. Nesse sentido, se o Brasil continuar a fazer a lição de casa, reduzindo a incerteza de curto prazo (medidas em direção ao aumento de eficiência e maior dinamismo para a economia) e dando encaminhamento para as questões que melhorem a perspectiva de solvência fiscal no longo prazo, isso tenderia a reduzir a volatilidade que você corretamente mencionou e levaria a abrir portas para uma maior entrada de capital estrangeiro. 


O empresário do transporte está ficando mais otimista? O que impulsiona esse otimismo?

Eu não diria otimista, mas o empresariado do setor de transporte está, neste momento, menos pessimista com relação à trajetória da economia brasileira. Pelo gráfico (Heatmap) que abre os componentes monitorados na pesquisa de confiança, é possível perceber que a recuperação gradual da confiança do empresário do setor de transporte esteve mais apoiada na expectativa com relação ao futuro próximo do que na avaliação quanto à situação corrente. Isso quer dizer que o empresário segue enxergando uma situação ainda difícil no curto prazo, mas que existe uma sensação de que a demanda irá melhorar no futuro próximo. Por trás dessa melhora de avaliação, esteve a troca de governo (na passagem de 2018 para 2019), o que sempre gera algum período de lua de mel, e, mais recentemente, a evolução da pauta de reformas. Assim, acredito que, nas próximas leituras, a tendência é vermos uma continuidade de melhora desses indicadores, uma vez que esses já devem incorporar a aprovação em primeiro turno da Previdência e as recém-anunciadas medidas de estímulo (liberação de FGTS).


O nível de ociosidade ainda é alto. Apesar dessa recuperação gradual da confiança, você acredita que vai demorar para que os empresários retomem investimentos? 

Alguns investimentos tendem a aparecer mais rapidamente, mesmo num ambiente de elevada ociosidade, desde que não haja nenhum aumento abrupto das incertezas. Isso acontece até pelo próprio aumento da obsolescência do maquinário que ficou "parado" ao longo da crise. De qualquer forma, acredito que o elevado grau de ociosidade é, sim, um impeditivo, ao menos no curto prazo, para uma retomada mais forte do investimento. Dessa forma, nossas projeções embutem uma recuperação puxada inicialmente mais por consumo (as medidas vão nesse sentido) e, na sequência, por um aumento dos investimentos, à medida que essa ociosidade vai se reduzindo. Com as taxas de crescimento embutidas em nosso cenário, a ociosidade (ou hiato do produto) deve fechar em algum momento entre 2022 e 2023. Se o Brasil crescer a taxas mais aceleradas, esse fechamento pode ocorrer até antes disso. 


A reforma tributária é uma pauta relevante e que pode ser o próximo grande debate no Congresso Nacional. O que indica, no atual cenário, que pode fazer com que esse tema, tão controverso ao longo do tempo, seja efetivamente pautado para votação?

A discussão de uma reforma ampla do sistema tributário brasileiro já se tornou uma demanda urgente, dado o elevado grau de complexidade e a distorção dos incentivos presente no modelo atual. Não por acaso, o regime de tributação do consumo no Brasil é considerado o mais complexo do mundo. Ou seja, é consenso que uma reforma tributária, qualquer que seja ela, deve ter como foco os princípios da simplicidade, transparência, neutralidade e equidade. As propostas de criação de um imposto sobre bens e serviços IVA/IBS (Imposto sobre Valor Agregado/Imposto sobre Bens e Serviços) caminham nesse sentido. A proposta do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal) – de autoria do deputado Baleia Rossi, preparada pelo economista Bernard Appy –, por exemplo, tenta conciliar elementos que foram os principais entraves nas discussões passadas da reforma tributária: 1) garantir a autonomia dos entes federativos; 2) criar regras de transição mais longas (de dez anos para consolidação dos impostos em um IBS), com o objetivo de reduzir o impacto sobre investimentos realizados com base no sistema atual; e 3) também, lidar, a partir da regra de transição (de 50 anos), na distribuição da receita do IBS para estados e municípios, com a resistência da União, dos estados e dos municípios a uma eventual perda de receita. Nesse último caso, o objetivo é permitir um ajuste mais tranquilo das finanças estaduais e municipais às mudanças. Tais elementos, na nossa avaliação, sustentam a expectativa de que essa reforma possa ser pautada em 2020, além do fato de o próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, estar bastante alinhado com a necessidade de modernização do sistema tributário brasileiro. 


Quais podem ser os desafios na votação dessa reforma, dado o pacto federativo?

Um primeiro grande obstáculo é justamente a definição com os estados e municípios de mecanismos de compensação dos desequilíbrios regionais derivados da unificação. Além disso, existem pontos sensíveis, como a discussão em torno dos impactos em regiões específicas, como a Zona Franca de Manaus. Outro ponto que pode gerar bastante debate é a questão da gestão da arrecadação e distribuição dos recursos. Na proposta da CCiF, essa gestão seria centralizada e coordenada pela União, pelos estados e pelos municípios, mas esse parece ser um ponto de discordância em relação à proposta dos estados.

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