Apesar de acostumado a lidar com cenários complexos, o economista Fernando Sampaio, sócio-diretor da LCA - Soluções Estratégicas em Economia, reconhece a excepcionalidade do momento. O país atravessa uma crise sanitária que, agravada pela descoordenação política, conduz a uma recessão severa. Ele avalia que as medidas de natureza econômica tomadas até agora pelo governo vão na direção correta e necessária. A velocidade é que preocupa. “A sensação é que o senso de urgência está um pouco turvado por uma preocupação com o quadro fiscal”, diz.

Para ser didático, o especialista recorre a uma alegoria. “Primeiro, tem de apagar o incêndio. Não é hora de se preocupar com a conta de água. Esse problema será abordado em um segundo momento”, defende. Segundo esse raciocínio, o governo deve agir sem demora para diminuir um pouco a carga de incerteza sobre a epidemia. “As famílias têm medo de não manter o padrão de vida, de sofrer carências alimentares. Do ponto de vista das empresas, a pergunta é: ‘Vamos sobreviver?’”, resume. 

Daí a importância do auxílio emergencial de R$ 600 e da abertura de linhas de crédito pelo Banco Central. “Mas, para as empresas de menor porte, o crédito ainda não está fluindo. Como alguns negócios estão fragilizados, os bancos ficam com medo de emprestar. As respostas nesse campo ainda não foram suficientes”, aponta. Sobre o chamado coronavoucher, ele observa que três meses de benefício é pouco, uma vez que a doença permanece sem tratamento eficiente. 

O repasse da União aos estados e municípios é outro ponto que preocupa. “O governo federal está com uma atitude muito cautelosa com relação a esse socorro. Vemos o Congresso agindo para impedir um sufocamento financeiro ainda mais grave. Por crises anteriores, a gente aprendeu que os estados sofrem mais do que a União. Por quê? Porque o principal tributo do país em termos de volume arrecadado é o ICMS, que é estadual. É um tributo muito pró-cíclico, e sua arrecadação tende a cair mais do que proporcionalmente quando a atividade econômica cai.”

Sampaio vê qualidades no Plano Pró-Brasil, ainda em fase de discussão. “Os documentos sobre ele são muito vagos, mas incluem um item que parece de bom senso, que é retomar obras paradas, evitando que elas se deteriorem. Em um esforço de retomada de investimentos para aliviar o desemprego e dar um empurrão para a retomada da atividade, as obras interrompidas têm vantagens evidentes em termos de velocidade e racionalidade”, ressalta. Todavia, o economista adverte sobre o alcance do programa. “Acho exageradas as comparações com o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento, do governo Geisel. Esta, agora, é uma iniciativa de fôlego muito menor, embora tenha virtudes, caso consiga ser viabilizada”, conclui.

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