Neste item são abordados os aspectos metodológicos da Pesquisa Rodoviária. A metodologia da Pesquisa Rodoviária está fundamentada na idéia de se qualificar trechos rodoviários de até 10 quilômetros de extensão segundo sua semelhança com um trecho perfeito, isto é, aquele que apresenta as melhores condições em todos os atributos considerados na Pesquisa. A quantificação dessa semelhança é realizada por meio de coeficientes de parecença, usados em análise de agrupamento para se medir semelhança ou disparidade entre dois objetos quaisquer. A escolha do coeficiente a ser usado é ditada pelo problema em análise.
Para propiciar tal comparação, é realizado, em um primeiro momento, o diagnóstico de cada trecho rodoviário. Nessa avaliação, pesquisadores devidamente capacitados e treinados identificam, por meio de formulários, a ocorrência e a predominância de uma série de características viárias, que se constituem atributos da geometria da via, da pavimentação ou da sinalização da rodovia.
Os elementos da Pesquisa relacionados à avaliação da geometria da via, pavimento e sinalização atendem à terminologia técnica de engenharia viária e abrangem itens considerados importantes para aprimorar a caracterização de cada aspecto pesquisado [1], de modo a facilitar a análise futura.
Em relação à forma de avaliação dos problemas viários, vale ressaltar que os objetivos da Pesquisa Rodoviária CNT restringem-se apenas à identificação e tipificação, já que a seleção dos métodos de intervenção corretiva ou preventiva é uma atribuição dos gestores das rodovias, quer públicos, quer privados.
O processo se inicia com a etapa de planejamento, na qual os procedimentos, formulários, rodovias e rotas são reavaliados de forma a melhorar continuamente a Pesquisa Rodoviária CNT. Em seguida, em paralelo, é feito o recrutamento e treinamento dos pesquisadores e também a formatação dos instrumentos de coleta de dados, com ajuste aos novos procedimentos adotados e formatação do formulário eletrônico para aquisição dos dados de campo.
Terminadas as etapas de preparação dos instrumentos de coleta de dados e de treinamento, a coleta de dados em campo está pronta para iniciar. Durante esta etapa são feitos monitoramento e acompanhamento diário dos pesquisadores, de forma a minimizar a interferência de imprevistos de campo no cronograma e resultados da pesquisa. Paralelamente os dados parciais vão sendo enviados e validados pela equipe de acompanhamento, corrigindo assim, em tempo quase real, eventuais falhas detectadas.
Encerrada a fase de coleta de dados em campo, é feita análise de consistência dos dados finais, consolidando assim a base da Pesquisa Rodoviária que será analisada. A partir da base consolidada, é aplicado o modelo CNT de classificação, do qual os resultados da pesquisa são gerados para fomentar a elaboração dos Relatórios Gerencial e Analítico, além da preparação do banco de fotos das condições rodoviárias.
A partir desta etapa, os Relatórios são preparados para divulgação, seja através da impressão, como da página da internet que hospedará os dados para consulta pública. Os principais resultados são organizados em uma apresentação e a pesquisa está pronta então para divulgação.
Na Figura 1 as etapas metodológicas estão apresentadas de maneira esquemática. Após a figura serão descritos os principais conceitos envolvidos em cada etapa.

Para o entendimento do processo de seleção de rodovias utilizado, faz-se necessária a compreensão de que a unidade de pesquisa da Pesquisa Rodoviária CNT é cada trecho de 10 quilômetros que compõem a rodovia.
Além disso, é necessário observar que, até 2003, a Pesquisa era realizada apenas nas rodovias que faziam parte das ligações rodoviárias. Desde 2004, com a mudança de metodologia, todas as rodovias federais pavimentadas foram incorporadas definitivamente à Pesquisa Rodoviária, crescendo em extensão à medida que as rodovias federais são pavimentadas no País. Além das rodovias federais pavimentadas, todas as rodovias estaduais pavimentadas que compõem as ligações rodoviárias foram absorvidas pela pesquisa.
Desta forma, desde 2004, a cada ano, a extensão da Pesquisa cresce em função de novas pavimentações de rodovias federais e da inclusão de novos trechos de rodovias estaduais, definidos pelo volume de veículos e importância sócio-econômica. Além disso, são avaliadas para inclusão na extensão da Pesquisa Rodoviária CNT as rodovias estaduais pavimentadas que possam promover a racionalização de percursos e favorecer a integração e desenvolvimento regional e as rodovias estaduais transitórias.
Como desde a Pesquisa de 2004 a extensão pesquisada compreende toda a malha viária federal pavimentada, assim como na Pesquisa de 2005, na Pesquisa de 2006 foram incluídas apenas extensões novas de rodovias federais pavimentadas, rodovias estaduais e rodovias transitórias. Foram adicionados 2.438 km de rodovias na Pesquisa deste ano, o que resultou em 84.382 km pesquisados, mantendo, assim, o gradual aumento em termos de cobertura da malha pavimentada nacional.
A Pesquisa Rodoviária iniciou fundamentada na lógica de corredores de transporte, que deram origem, então, ao conceito de ligações rodoviárias. Ao longo dos anos, o número de ligações foi crescendo e consequentemente a extensão pesquisada. Desde 2004, com a definição de pesquisar todas as rodovias federais pavimentadas, o conceito de ligações deixou de nortear a Pesquisa Rodoviária, apesar de serem mantidas as 109 ligações na análise, abrangendo as cinco regiões do país e todas as 27 Unidades da Federação.
Pela metodologia, ligação rodoviária é uma extensão formada por uma ou mais rodovias federais ou estaduais pavimentadas, com grande volume de transporte de cargas e/ou de passageiros, e que interliga territórios, de uma ou mais Unidades da Federação, em que se verificam relevâncias sociais, políticas e econômicas. A metodologia da Pesquisa define que os critérios de seleção utilizados na escolha das ligações sejam o volume de veículos e a importância sócio-econômica, a partir da atuação dos transportadores de cargas e de passageiros.
Os dados de volume, obtidos a partir de contagens volumétricas realizadas por órgãos oficiais de transporte e também de informações de empresas do setor, permitem a seleção das rodovias com fluxo de veículos mais intenso. Já a análise econômica inclui a movimentação de passageiros e de cargas [2], o potencial de crescimento econômico e a relevância, atual ou futura, da área de influência do trecho para o desenvolvimento local e para a integração regional. Do cruzamento destes dois grupos de informação, resultam as ligações rodoviárias pesquisadas.
A partir da definição da malha pesquisada, são determinadas as rotas de pesquisa. Cada rota é composta de uma extensão a ser pesquisada mais os trechos de deslocamento, onde a pesquisa não é realizada. A preocupação principal na montagem das rotas é que se possa coletar toda extensão definida para pesquisa no menor prazo possível, sem sobreposição das rotas principais.
Para Pesquisa Rodoviária CNT 2006 foram definidas 14 rotas de pesquisa principais, e uma rota de checagem, que percorre parte das demais rotas a fim de confirmar as condições levantadas pelos pesquisadores.
Nesta etapa são desenvolvidos os instrumentos de coleta de dados, desde os formulários em papel até os formulários eletrônicos para digitação dos dados coletados em campo. Durante a preparação dos instrumentos de coleta de dados são gerados os mapas que orientam os pesquisadores no campo e que norteiam o controle do andamento da pesquisa. São gerados também os formulários eletrônicos para transposição dos dados coletados em formulários no campo para o computador, criticando automaticamente entradas de dados que não sejam coerentes e auxiliando assim, o pesquisador, a corrigir problemas de campo no mesmo dia em que eles ocorrem. A preparação dos instrumentos de coleta de dados tem como finalidade organizar as informações para a montagem da base de dados da pesquisa, que reúne todas as informações das rodovias onde a pesquisa é realizada. A base de dados consolida as informações levantadas em campo para análise estatística e georeferenciada.
Nessa etapa é feita a preparação do pessoal selecionado para o levantamento das informações em campo. O objetivo principal dessa fase é treinar os pesquisadores em relação às características viárias que deverão ser diagnosticadas e como essas deverão ser avaliadas.
Para isso, foi realizado um intensivo treinamento, teórico e prático, de 120 horas de duração. No treinamento teórico é realizado um trabalho de padronização de conceitos e de aprendizagem sobre: o preenchimento do formulário, o levantamento da localização de infra-estruturas de apoio, a utilização do GPS, da máquina fotográfica digital, o manuseio do notebook e os procedimentos operacionais da Pesquisa. Diversas técnicas de aprendizagem são utilizadas nesse treinamento, destacando-se as exposições teóricas, os trabalhos em grupo e as análises de vídeos e fotos de pesquisas anteriores.
No procedimento de campo, os pesquisadores em treinamento, monitorados pela coordenação da Pesquisa, percorrem seis rotas teste, com extensão total de cerca de 750 km, simulando o procedimento de coleta de dados da Pesquisa. Esses trechos, previamente identificados e escolhidos pela excelente diversidade de características apresentadas, corroboram para a fixação dos procedimentos teóricos e principalmente para a padronização de conceitos e da observação de critérios entre os pesquisadores.
De modo a permitir que a Pesquisa atinja seus propósitos, os procedimentos utilizados para o levantamento dos dados “in loco” foram planejados para atender a dois requisitos básicos:
Foram 39 dias de coleta de dados, no período entre os dias 28 de junho e 05 de agosto, por 15 equipes, compostas de pesquisadores e motoristas, selecionados e treinados pelas Coordenações Técnica e Estatística da CNT, que conduziram os trabalhos. Ao todo, foram percorridos 127.867 km em 2.904 horas de coleta, resultando nos 84.382 km avaliados em 2006.
No processo de coleta dos dados, a extensão total de pesquisa, composta por todas as rodovias federais pavimentadas e algumas rodovias estaduais selecionadas, foi alocada em 14 rotas a serem percorridas pelas equipes de Pesquisa. A equipe remanescente, 15ª, percorre uma rota de checagem com a função de aferir, por amostragem, os resultados do trabalho de cada uma das demais equipes. Por efetuar coletas amostrais de trechos que já compõem outras rotas, a extensão total percorrida pela equipe de checagem (4.669 km em 2006) não é considerada na totalização da extensão pesquisada.
A obtenção dos dados é feita de forma direta: as equipes utilizam veículos de passeio trafegando a baixa velocidade (entre 40 km/h e 50 km/h) e os pesquisadores observam e registram, em formulário especificamente desenvolvido para este fim, as características predominantes de cada trecho de 10 quilômetros. Outra atribuição dos pesquisadores é fotografar as principais ocorrências de trechos críticos ao longo das rodovias e identificar, com o uso do GPS, a posição de infra-estruturas auxiliares pré-selecionadas. Utilizando estes procedimentos, a coleta é feita de forma contínua, ou seja, as condições de conservação são observadas em toda a extensão viária pesquisada, e não por amostragem.
Os dados coletados em campo são semanalmente enviados para a coordenação da Pesquisa para a verificação de sua consistência e posterior consolidação. O registro do material coletado pelo pesquisador é realizado por meio de computadores e o seu envio por meio da internet ou mídia digital. O Serviço Social do Transporte (SEST) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (SENAT), além de propiciarem um ponto de apoio ao pesquisador na estrada, ofereceram meios eficientes de comunicação com a coordenação da Pesquisa e envio de dados.
Com o recebimento das informações, se inicia a apuração e a consistência do que foi coletado em campo, tendo como referência o STU/PNV 2002 e 2004. O Sistema de Trechos Unitários (STU), divulgado pelo Departamento Nacional de Infa-Estrutura de Transportes - DNIT detalha as quilometragens das rodovias pertencentes ao Plano Nacional de Viação (PNV) e serve de base para o trabalho de consistência das informações. Posteriormente, é executada a consolidação da base de dados para a análise estatística e aplicação da metodologia da Pesquisa Rodoviária. Nessa etapa, os trechos rodoviários são classificados conforme a presença, ausência ou predominância dos atributos verificados em campo.
Após a conclusão da etapa de coleta, tabulação e análise de dados, é aplicado o modelo de classificação de rodovias da Confederação Nacional do Transporte, que considera e avalia três características físicas principais do sistema viário: pavimentação, sinalização e geometria. Complementarmente, a infra-estrutura de apoio das rodovias é verificada.
Cada uma destas variáveis é aferida de acordo com as opções de resposta do formulário da Pesquisa. Temos, então, que, para cada tipo de resposta é atribuído um peso numérico representativo de sua importância em relação à característica avaliada.
A atribuição de valores a esses pesos foi estabelecida mediante análise de sensibilidade dos itens avaliados. Este procedimento científico constitui-se, basicamente, na calibração dos valores dos pesos a partir da simulação de diversos cenários desenvolvidos para representar as diversas situações encontradas nas rodovias. Para cada rodada destes cenários, em modelo matemático computadorizado, compara-se o resultado obtido com a situação verificada na rodovia. Tal procedimento é repetido até que a calibragem represente, o mais fielmente possível, a situação real.
Da média aritmética dos pesos atribuídos às características observadas em relação ao pavimento, sinalização e geometria, obtém-se a nota final da rodovia, bem como as notas isoladas de cada uma das 3 características. A partir da nota final, é atribuída a classificação da extensão avaliada.
Após a classificação das rodovias, são elaboradas as tabelas de resultados gerais, das rodovias estatais, das rodovias pedagiadas, por região e unidades da federação e o ranking das ligações. Também nesta etapa são elaborados os mapas das ligações com todo detalhamento das condições e infra-estruturas disponíveis.
São gerados então os Relatórios Gerencial e Analítico. O Relatório Gerencial, que está sendo apresentado, tem como finalidade mostrar os principais resultados obtidos pela Pesquisa em toda extensão pesquisada, sendo disponibilizado de forma impressa e pela internet. Já o Relatório Analítico visa oferecer maior detalhamento das condições rodoviárias das principais ligações e só é disponibilizado pela internet.
Com os resultados da Pesquisa organizados e os Relatórios prontos, é feita a apresentação dos resultados à sociedade.
[1] Foram considerados os métodos de avaliação das condições do pavimento adotados pelas normas do DNIT como forma de melhor subsidiar a escolha dos itens relacionados à condição dos pavimentos.
[2] Provenientes de dados do IDET (Índice de Desempenho Econômico do Transporte), elaborado a partir da pesquisa CNT/Fipe.