20/09/2011

“A renovação da frota de caminhões é uma questão de interesse nacional”

Presidente da Associação Brasileira dos Municípios Portuários e prefeito de Santos (SP), João Paulo Papa, defende implantação de plano criado pela CNT.

 

Foto: Tadeu Nascimento/Prefeitura de Santos “A renovação da frota de caminhões é uma questão de interesse nacional”

Segundo os últimos dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a frota brasileira de caminhões conta com mais de 1,5 milhão de unidades. As vendas não param de crescer e os veículos mais antigos, responsáveis pelos maiores índices de poluição e de acidentes nas estradas, continuam em circulação no país.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Municípios Portuários (ABMP) e prefeito de Santos (SP), João Paulo Tavares Papa, 90% da frota que atua na cidade tem mais de 30 anos, o que traz prejuízos para a região.

Para mudar essa realidade, presente em todo o litoral do Brasil, representantes da associação pretendem implantar um projeto elaborado pela Confederação Nacional do Transporte, o RenovAr – Plano Nacional de Renovação de Frota de Caminhões. Em entrevista à Agência CNT de Notícias, João Paulo Papa detalha o assunto.

Na última reunião da Associação Brasileira dos Municípios Portuários (ABMP), a situação da frota de caminhões que circula nessas cidades teve destaque. Por quê?
A ABMP fez uma avaliação sobre o que acontece com a frota de caminhões que opera nos principais portos brasileiros. O nosso diagnóstico mostra que o destino dos caminhões mais antigos acaba sendo a atividade portuária, fazendo transporte entre porto e retroporto, circulando na maior parte dos casos nas áreas urbanas dessas cidades. Em função disso, a associação decidiu se incorporar ao esforço da Confederação Nacional do Transporte na implantação do RenovAr (Plano Nacional de Renovação de Frota de Caminhões).

Nós achamos que é um plano extremamente necessário para o país, pois uma concentração de veículos muito antigos gera insegurança, poluição e emissões desnecessárias. Enquanto as cidades hoje têm metas de redução de emissões, nós estamos convivendo com um dos fatores que mais agravam essa situação, então a entidade decidiu apoiar esse projeto da CNT e procurar ajudar na formulação de uma política definitiva que permita a renovação da frota brasileira.

Como as cidades portuárias pretendem implantar o plano?
Nós tomamos algumas decisões e a primeira delas foi solicitar uma reunião com o ministro Fernando Pimentel (ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). Ele decidiu que o primeiro encontro deveria ser com sua equipe, o que ocorreu no último dia 13. Participaram da reunião os principais membros da equipe do Ministério, assessores, o Sindicato dos Transportadores Autônomos da Baixada Santista, a CNT e, também, a Secretaria Especial de Portos, que reafirmou a posição da ABMP, declarando que um dos maiores problemas da atividade portuária está relacionado exatamente à idade da frota dos caminhões.

Além de altamente poluidores e muito inseguros, são totalmente ineficientes, ou seja, o trabalho está se aviltando cada vez mais porque esse caminhoneiro praticamente trabalha para conseguir comer. Isso tudo por conta das quebras constantes e do alto custo pra manter esse veículo.

O levantamento que a CNT fez foi a base para a nossa articulação. Mas nós estamos nos dispondo a trazer ainda mais elementos para esse relatório, que está muito bem feito, por sinal, mas buscamos elementos específicos para a atividade portuária. E o que se nota é que, de fato, a concentração de equipamentos muito antigos – com mais de 20 anos –, alguns com mais de 40 anos, nos portos, está muito acima da média nacional.

Está claro para todos que o fim do ciclo de vida desses caminhões é a atividade portuária por várias razões, inclusive por natureza de fiscalização e por conta do trajeto, pois são viagens curtas e que não dependem de estradas. No Porto de Santos, há cinco mil caminhões autônomos, dos quais 90% tem mais de 30 anos. É um dado estarrecedor.

O que será feito a partir de então?
Na reunião, a CNT declarou que a realidade nos portos merece um tratamento especial pelo ministério. E com essa posição da CNT e da Secretaria de Portos, conseguimos com a equipe do ministério a possibilidade de desenvolver um projeto piloto para a frota portuária. Para isso, criaremos um grupo de trabalho para diagnosticar a realidade das cidades portuárias e já está prevista uma reunião para a próxima semana, aqui em Santos. A equipe do ministério virá conhecer a realidade local. Estou mobilizando os principais prefeitos portuários para que venham ou mandem seus representantes, pois sabemos que a realidade é muito parecida.

O RenovAr, pela sua dimensão, tem enfrentado algumas dificuldades no âmbito do governo. Nós não temos no país uma normativa que possa garantir a reciclagem dos veículos. Então, a ideia que foi cogitada e discutida é de se tentar fazer um projeto piloto voltado para a frota concentrada mais antiga e que está mais próxima a áreas urbanas, que é a frota portuária.

Um outro ponto que foi decidido é que a ABMP vai fazer um levantamento rápido da realidade das frotas nas outras cidades portuárias. Queremos apresentar uma avaliação já nessa primeira reunião.

A reciclagem seria viável nessas cidades?
Acredito que sim, pois nós seríamos parâmetros a partir da implantação em uma escala menor para testar o modelo. Com isso, ele poderia crescer e dar maior amplitude ao programa. Nós temos aqui em Santos condições que podem favorecer o projeto piloto. Temos uma siderúrgica no pólo de Cubatão e fábrica de vidro próxima, isso já pensando na reciclagem desse material. Sem falar de aço, bateria, pneus...

O que é preciso para colocar o projeto em prática? Realizar parcerias?
Um aspecto que foi muito abordado na reunião é que os caminhoneiros autônomos não têm acesso a crédito para renovação da frota. Então, o governo precisa estabelecer condições especiais voltadas para esse público particular.

Outro aspecto é a questão da normativa, a regulamentação para reciclagem que precisa ser definida por norma federal, e que garanta a inutilização completa do caminhão antigo, para que ele não seja repassado pra frente e continue rodando em outras praças.

Acho que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior é o ministério que precisa capitanear o processo, mas ele tem que contar com apoio do Ministério do Meio Ambiente, da Secretaria de Portos, Ministério da Fazenda, BNDES... E o nosso papel, da associação e também dos sindicatos do setor, é buscar um encaminhamento mais rápido dessa política.

A associação trabalha com alguma meta para a renovação da frota?
O processo de renovação da frota está atrasado em pelo menos uns dez anos, e temos que correr atrás desse tempo. A meta é tentar fazer um esforço político para ser implantado com extrema urgência. Isso é fundamental.

O trabalho da CNT é um trabalho exemplar, extremamente necessário e é um projeto de amplo espectro socioambiental. Uma atividade que é essencial para a cadeia logística brasileira. Estamos falando de avanços substanciais na questão das emissões de carbono, o que interessa a toda a população.

O governo precisa encontrar meios de conduzir essa renovação de frota, porque espontaneamente ela não vai acontecer. Nas cidades portuárias, os caminhões estão praticamente se desfazendo nas vias, poluindo, gerando altos riscos de acidentes e o mercado por si só não tem condições de gerar essa renovação. Ela precisa ser conduzida como política de governo e a CNT está certíssima em trabalhar esse plano, que é de interesse nacional, e não só do setor.

 

Aerton Guimarães

Agência CNT de Notícias

 

Os textos veiculados pela Agência CNT de Notícias podem ser reproduzidos desde que a fonte seja citada. O conteúdo está licenciado sob a CC-by-sa-2.5, exceto quando especificado em contrário e nos conteúdos replicados de outras fontes.