13/08/2014

Prioridade aos ônibus pode recuperar demanda pelo transporte coletivo

Presidente da NTU, Otávio Vieira da Cunha Filho, fala sobre a perda de passageiros e perspectivas de novos projetos para o setor.

 

Foto: Divulgação/NTU Prioridade aos ônibus pode recuperar demanda pelo transporte coletivo

Levantamento elaborado pela NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) aponta que, em 18 anos, a demanda pelo transporte coletivo rodoviário de passageiros nas cidades caiu 30%. Por trás dessa redução estão dificuldades como a queda de produtividade do setor, decorrente da falta de investimentos em infraestrutura e dos congestionamentos, que atrasam as viagens e requerem mais veículos rodando.

Os dados estão no Anuário NTU 2013/2014. Em entrevista à Agência CNT de Notícias, o presidente-executivo da entidade, Otávio Vieira da Cunha Filho, comentou os dados e falou sobre os desafios que devem ser superados para que o transporte coletivo seja mais eficiente e recupere passageiros, ajudando a desafogar o trânsito das grandes cidades.

Em 18 anos o setor vivenciou perda significativa da demanda. Somente em 2013, 173 milhões de passageiros deixaram de utilizar este meio de transporte, segundo o Anuário 2013/2014 da NTU. Qual o impacto financeiro e de que forma isso afeta o serviço prestado aos usuários?

O prejuízo nesses últimos 18 anos chega a R$ 47 bilhões. O que eu diria é o seguinte: nós estamos andando na contramão da história. Em vez de você incentivar o transporte público, trazer mais produtividade a ele, atrair novas demandas, baratear o custo do serviço, nós estamos reduzindo o número de passageiros transportados por veículo a cada ano, aumentando o custo do serviço e a tarifa e fazendo com que o usuário migre para outro tipo de transporte. Precisamos retomar um ciclo mais produtivo para o transporte público.

O que é necessário para alterar esse cenário?

Acho que investimentos na infraestrutura principalmente. Se analisar os últimos investimentos em corredores estruturantes de transporte, vamos ter resultados significativos em qualidade de transporte. E isso faltou aos governos, principalmente o federal, porque os municípios, via de regra, não têm recursos suficientes. Mas o governo federal tem. Tanto que disponibilizou, após as manifestações de junho do ano passado, mais de R$ 50 bilhões. Evidentemente que esses investimentos têm maturação mais longa, de médio e longo prazo. Eu diria que a partir de 2016 vamos começar a ver resultados muito significativos. O Rio de Janeiro já inaugurou dois grandes corredores, com um nível de aceitação de mais de 85% da população usuária. Belo Horizonte inaugurou o BRT Move, que são dois corredores também com aceitação muito grande. Esses novos corredores irão abrigar a implantação de novos sistemas de transporte, diferentes do ônibus convencional, traduzidos em qualidade no transporte. Isso vai atrair demanda. Todas as cidades que migraram para esse tipo de política certamente colherão os resultados. Mas o principal problema da crise do transporte está mais motivado pela falta de investimentos públicos, pela falta de prioridade dada ao transporte público. Se você coloca um veículo de excelente qualidade rodando, ele ficará parado no trânsito e gerará as mesmas insatisfações. Acho que a parte menor de responsabilidade disso é dos empresários. A análise que a população faz é que o empresário é o vilão da história, porque quer aumentar a tarifa para ter lucro. Mas o que estamos tentando é manter o mesmo nível de serviço oferecido, por força dessas perdas de produtividade.

Em junho completou um ano desde que a presidente Dilma Rousseff anunciou o Pacto da Mobilidade, em resposta às manifestações de junho do ano passado. Mas pouca coisa foi efetivada. Como isso está se encaminhando e como o setor analisa as medidas tomadas?

A presidente criou o Pacto no calor das manifestações. Existe um grupo de trabalho no âmbito do Ministério das Cidades que elaborou uma série de propostas de medidas de curto, de médio e de longo prazo. Algumas sugestões foram geradas dentro da própria NTU, como a criação de faixas seletivas para revitalizar o transporte convencional. Aqui em Brasília, algumas faixas seletivas implantadas geraram aumento de 12% na demanda, segundo palavras do secretário de Transportes do Distrito Federal, mostrando que a redução do tempo de viagem está atraindo demanda nova. Então nossa proposta inicial foi essa: priorizar o transporte por meio de faixas seletivas, melhoria dos pontos de parada e informação ao usuário, que são as principais reclamações.

Mas em termos de respostas às reivindicações feitas, nada foi concretizado por enquanto.

Não, efetivamente não teve nada até agora. A nossa proposta para essas faixas seletivas demandaria apenas R$ 5 bilhões. Com isso, é possível construir cerca de 4 mil km de faixas seletivas em todo o Brasil. Isso com 10% do que a presidente anunciou no calor das manifestações, porque o PAC da Copa, o PAC Mobilidade Grandes e Médias Cidades já tinham mais de R$ 70 bilhões. Nunca se falou de tanto dinheiro assim: mais de R$ 100 bilhões que, na prática, não está sendo traduzido em melhorias. Alguns casos porque os projetos têm maturação longa, como os investimentos em metrô e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Por isso eu acho que uma parte dos recursos investidos agora só apresentará resultados em 2016.

As empresas de transporte estão enfrentando outra dificuldade que são casos de vandalismo e incêndio de ônibus. Quais são os prejuízos e o que fazer para enfrentar esses problemas?

Esse é um dado importantíssimo de comentar. O incêndio a ônibus é o que coloca na mídia quem está reivindicando, o que favorece a repercussão daquilo que está se pretendendo. Mas raramente os casos são de reclamações com o próprio serviço. Somente neste ano, de janeiro até junho, foram 429 ônibus incendiados. Nos últimos 10 anos foram 965 veículos queimados. Nós fizemos uma estimativa que, considerando o preço do veículo a ser renovado, isso gerou um custo de R$ 388 milhões de reais. Se considerar os custos sociais, o tempo necessário para repor o veículo, nós teríamos um custo total de R$ 520 milhões nos últimos 10 anos. Nós temos uma proposta que é inserir na Lei de Mobilidade Urbana a responsabilidade do poder público de cuidar para isso não acontecer e, se acontecer, de alguma forma ressarcir as empresas. Até hoje nós tivemos um único caso de ressarcimento de dano por incêndio a ônibus, que foi um caso no Rio de Janeiro. O Supremo Tribunal Federal tem entendido que não há responsabilidade objetiva do estado nesses casos. Só existira se a empresa avisasse a polícia que haveria o incêndio e não houvesse proteção. Todavia, o Código Penal Brasileiro, no artigo 250, prevê pena de três a seis anos de prisão e multa para quem causa incêndio e, no caso especifico do transporte público, existe acréscimo de um terço dessa pena. A legislação existe, mas o problema é que não é aplicada.

 

Natália Pianegonda

Agência CNT de Notícias

 

Os textos veiculados pela Agência CNT de Notícias podem ser reproduzidos desde que a fonte seja citada. O conteúdo está licenciado sob a CC-by-sa-2.5, exceto quando especificado em contrário e nos conteúdos replicados de outras fontes.