21/07/2015

Embaixador brasileiro na China fala sobre oportunidades de investimentos em infraestrutura

Valdemar Carneiro Leão concedeu entrevista à Agência CNT de Notícias

 

Foto: Jose Antunes Embaixador brasileiro na China fala sobre oportunidades de investimentos em infraestrutura

Em entrevista à Agência CNT de Notícias, o embaixador do Brasil na China, Valdemar Carneiro Leão, avaliou que os dois países têm a ganhar com a ampliação das relações bilaterais voltadas à implementação de investimentos. Na análise dele, há uma tendência de o país asiático dar andamento a ações de fortalecimento da economia interna. Nesse cenário, as empresas com larga experiência na construção de redes de transporte, tendem a buscar mercados no exterior.

O embaixador também destacou a importância do Escritório da CNT em Pequim para promover uma aproximação maior entre os investidores chineses e o setor privado brasileiro.

Valdemar Carneiro Leão se aposentará em setembro deste ano. Diplomata de carreira desde 1972, ele já ocupou o cargo de subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Financeiros no Ministério das Relações Exteriores e foi ainda embaixador no Canadá e na Colômbia.

Como o senhor avalia a decisão da CNT de implantar um escritório de representação na China?

Em primeiro lugar, a decisão de instalar um escritório em Pequim é extremamente oportuna, pioneira e que revela uma visão estratégica do setor. A China é, hoje, a segunda maior economia do mundo. Em alguns anos, provavelmente será a primeira. É, também, a primeira parceira comercial do Brasil. Hoje, estamos transitando de uma cooperação de economia essencialmente calcada no comércio para uma que será, também, apoiada em investimentos.

A presença da CNT, portanto, é crucial para que possa compreender e transmitir melhor ao Brasil o que é a economia desse país, suas peculiaridades e onde existem afinidades de negócios bilaterais. E, além disso, há todo um trabalho que a CNT vem fazendo no sentido de identificar parcerias, mostrar as empresas chinesas no ambiente de negócios do Brasil, mostrar a necessidade e a importância de que sejam sempre encontrados parceiros para que essa inserção das empresas chinesas no Brasil se faça de uma maneira que permita ao investidor chinês melhor compreender o nosso ambiente de negócios.

Por fim, há um esforço grande na arregimentação de empresas e empresários chineses em todos os eventos conjuntos, e cada vez mais numerosos, que se realizam entre os dois países. Nós tivemos, nos últimos 12 meses, duas visitas dos dois maiores líderes chineses ao Brasil: o presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Keqiang. Em ambos os casos, eles foram acompanhados por empresários chineses em grande número. Essa arregimentação de empresários e a organização de encontros business to business teve a participação muito importante da CNT, na detecção das empresas que são parceiras potenciais importantes para futuros investimentos no Brasil. Nesse pouco prazo que a CNT esteve aqui, suas realizações já são muitas.

Quais os resultados positivos que o Brasil pode obter por meio dessas parcerias?

Eu vejo a relação Brasil-China em um momento de muita convergência de interesses. Em primeiro lugar, porque a China está em um processo de reforma do seu sistema, evoluindo de um modelo de crescimento calcado, basicamente, em exportações, para um sistema de crescimento mais calcado no consumo interno, aumento de renda, em serviços e inovação. A transição de um para outro não será rápida.

A China é uma economia gigantesca, montou uma estrutura de produção que é voltada para grandes investimentos e para a exportação. Essa transição deverá ser feita de forma cuidadosa, para que não haja uma desarticulação do sistema. Porém, o fato de que ela está, de alguma maneira, reduzindo os investimentos e a missão exportadora, voltando-se mais para o mercado doméstico, vai necessariamente liberar capital, tecnologia e expertise em uma série de áreas que o Brasil está necessitado. E a área de transportes é tipicamente um exemplo. Como se sabe, eles têm grandes empresas de construção, construtoras de rodovias e, muito em particular, de ferrovias. Essas empresas terão, com esse novo modelo, menos oportunidades de negócios na China do que tiveram nos últimos 30 anos. É natural que busquem mercados fora. E o Brasil está, justamente, em uma fase de ansiedade por receber investimentos e tecnologia de transportes e de logística em geral.

Portanto, trata-se de uma parceria que é quase uma oportunidade única para o Brasil. Ao mesmo tempo, o Brasil se transforma, para a China, em uma oportunidade de investimentos. Portanto, acho que há uma coincidência de interesses no tempo. O comércio continuará sendo dinâmico. Mas, por conta da queda nos preços das matérias-primas, os valores possivelmente vão sofrer um pouco esse impacto e teremos números menores neste e no próximo ano. Mas o dinamismo comercial estará lá. E teremos uma ênfase e atenção maior na relação voltada para investimentos.

No cenário atual, de instabilidade econômica, de que maneira os dois países, membros do BRICS, podem agir para fortalecer suas economias?

As parcerias e as relações Brasil-China têm sua singularidade. Talvez não necessariamente devem ser vistas num contexto que possa ser do BRICS ou da América Latina. É uma relação econômica importante, vigorosa e dinâmica demais para estar subordinada a contextos ou grupos maiores. Tem, portanto, suas características próprias. O lado comercial sempre foi o mais vistoso, com um crescimento quase exponencial.

Por outro lado, o fato de os dois países serem membros do BRICS gera uma dinâmica diferenciada em determinados segmentos. Durante os primeiros anos de sua existência, o bloco esteve voltado para uma agenda essencialmente internacional, que tinha seu foco na reforma econômica internacional, com alguns êxitos que são conhecidos. Estamos em uma etapa que os países-membros passaram para uma agenda própria, com foco em projetos e realizações que sejam para benefício múltiplo. Há uma diferença entre trabalhar em cima de uma agenda, como era a do G-20, de reformas interessantes do sistema de governança global, e uma agenda que é voltada para interesses específicos de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. E eu daria como exemplo principal o novo banco de desenvolvimento do BRICS.

De que maneira o setor privado pode contribuir nessas relações bilaterais voltadas para investimentos em infraestrutura?

A China tem uma experiência muito curta de implantação de sua capacidade produtiva fora do próprio território. A estratégia de sair, determinada pelo governo chinês, está se realizando gradualmente. Então, a China não tem uma experiência consolidada. Muitas vezes, ela entra comprando tecnologia, marca. Ou seja, na medida em que a China se aproxima do Brasil e se engaja num programa de investimentos, ela vai precisar de parcerias que ofereçam conhecimento de mercado, experiência operacional, conhecimento das regras fiscais, financeiras, do mercado de capitais. Há toda uma série de circunstâncias, um ambiente de negócios que a China precisará ser, de alguma maneira, iniciada, e, portanto, necessitará de parceiros. O setor privado brasileiro estará, também, interessado engajar-se em programas de longo prazo, sobretudo em se tratando de projetos de infraestrutura. Assim, as empresas brasileiras poderão oferecer uma parceria que será valorizada.

 

Natália Pianegonda

Agência CNT de Notícias

 

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