15/04/2014

“Devemos rediscutir o modal”, diz presidente da Federação Nacional dos Taxistas

Edgar Ferreira de Sousa faz um retrato da categoria no país e enumera questões que precisam ser revistas e modificadas.

 

Foto: Arquivo Pessoal “Devemos rediscutir o modal”, diz presidente da Federação Nacional dos Taxistas

O presidente da Federação Nacional dos Taxistas e Transportadores Autônomos de Passageiros (Fencavir), Edgar Ferreira de Sousa, falou com a Agência CNT de Notícias sobre a quantidade de veículos existentes no país, a acessibilidade, como estão os preparativos do setor para a recepção de eventos internacionais como a Copa do Mundo e o que deve ser alterado na realidade dos taxistas.

Há quantos táxis hoje no país?
Bom, não há uma aferição que possa acreditar os números que temos hoje. Em 2001, fizemos um levantamento e, por amostragem, encontramos cerca de 300 mil táxis no Brasil, mas, de lá para cá, todos os municípios do Brasil adicionaram mais permissões de táxi ao sistema. Só no Rio de Janeiro, foram quase 10 mil táxis a mais, hoje tem 33 mil táxis legalizados. Já a cidade de Confins na grande Belo Horizonte tinha 18 táxis e hoje tem 400. Diante disso, estamos preparando uma pesquisa qualitativa e quantitativa do serviço de táxi no Brasil, mas estimamos que esse número esteja próximo de 500 mil táxis hoje. Se cada município, em média, adicionou mais 36 táxis à frota dará mais de 200 mil táxis.  

A quantidade supre a demanda do país?
Essa é uma pergunta difícil, e a resposta carece de várias equações. A sensação é de quem comeu muito e agora está com má digestão. O sentimento é de que há um acesso de oferta de táxis em todos os municípios. Nos últimos anos, houve muita pressão dos taxistas auxiliares, por exemplo, no Rio de Janeiro, e os municípios acabaram cedendo à pressão e liberaram mais permissões. Daí a sensação de empanzinamento. Mas quando chove ou há algum evento como o da Copa agora, esse número pode vir a ser insuficiente. Mas, passada a sazonalidade, os táxis voltam a fazer filas para esperar que alguém apareça.

Qual a solução, portanto, para o setor?
O ideal é que houvesse uma legislação federal que desse garantias jurídicas ao setor e um norte aos municípios na hora de decidir se adiciona ou não mais táxis. Normalmente, esse critério é meramente político e não leva em consideração a população economicamente ativa fixa e a flutuante. A renda per capta também deve ser levada em consideração dentre vários outros fatores a serem considerados na hora de decidir se o município precisa ou não de mais táxis.

Como o senhor vê o setor na recepção de eventos internacionais como a Copa do Mundo? Os taxistas estão preparados?
Acho que, em algumas cidades, sim, eles estão preparados. Em outras, não. Em Belo Horizonte, por exemplo, vamos dizer que sim, os taxistas estão preparados para atender os turistas, pois eles começaram há 20 anos esse treinamento. Já outros como o Rio de Janeiro, que tem um número muito grande de táxis e taxistas e deveria ter começado a preparar os profissionais há pelo menos 10 anos e só está começando agora, acho que, olhando do ponto de vista do poder público, não estamos preparados para esse evento. Contudo, não podemos generalizar que há um grande numero de taxistas que isoladamente se prepararam ao longo do tempo e hoje são ícones do sistema em atendimento aos usuários. Isso é perceptível em todas as cidades, mas não se trata de política de governo. Repito: faltou vontade política e, espontaneamente, só os taxistas diferenciados vão se preparar para o serviço.
O Sest Senat montou uma grande estrutura de treinamento em todo o Brasil, mas faltou a parte do poder publico municipal em tornar obrigatória a preparação. Nesse caso, a prefeitura de BH foi diligente, e o sindicato, a duras penas, apoiou a obrigatoriedade e ainda hoje tem muitos taxistas que, mesmo reconhecendo a importância da preparação, ainda reclama do curso obrigatório.

O que está sendo feito para aprimorar o serviço em eventos internacionais?
Com a proximidade dos próximos eventos esportivos e diante da grandiosidade deles, todos os brasileiros se viram envolvidos pelo clima de Copa do Mundo. E os taxistas, como todos, querem se posicionar melhor na hora da foto. Então, as resistências comuns de certa forma diminuíram.  E a estrutura para atender a demanda a longo prazo não comporta uma demanda sazonal de curto prazo. Mesmo outros órgãos do Sistema S abrindo espaço para o treinamento de taxistas com vistas à Copa, ainda teremos muitos que não conseguirão sair nessa foto.
Belo Horizonte, que é onde moro e, portanto, tenho mais informações, tem uma expectativa de receber 120 mil turistas que virão em função da Copa. O Sest Senat e a prefeitura já estão na fase de relembrar pontos turísticos e dar alguns retoques "obrigatórios", pois o principal já foi feito e, ainda assim, é preocupante, pois só poderemos aferir depois.

Os taxistas estão estudando outros idiomas?
Sim, todos estão preocupados com a comunicação com os turistas e, de uma forma ou de outra, estão mais atentos às línguas que certamente vão se deparar nesse período. Há uma percepção de que todos estão preocupados. Mas também há o desconforto de alguns que já não possuem entusiasmo com as festas e, nesses casos, a culpa foi do Congresso Nacional e do governo, que demorou muito a dar uma resposta a uma enxurrada de dúvidas. Além disso, temos a insegurança jurídica que vivemos nos últimos anos. Com o Ministério Público cobrando interpretações da legislação de forma equivocada, os municípios suspenderam a transferência de permissões e, com isso, a mão de obra operadora está envelhecendo e, assim, impedindo que novos talentos ingressem no sistema trazendo novo ânimo, entusiasmo e prazer em servir. Nesse aspecto em particular, o governo foi muito reticente e inseguro, vetando projetos relativamente bons e oxigenadores do sistema. Mas finalmente conseguimos a duras penas aprovar alguma coisa e já começa a dar sinais de resultados. Mas isso vai demandar pelo menos cinco anos para depurar. Culpa do Congresso e do governo, repito.

E em relação a táxis adaptados para transportar pessoas com deficiência? Que retrato pode se fazer dessa situação no país?
Esse é um serviço relativamente novo e ainda em fase experimental no Brasil. O primeiro de que tive notícias começou em Salvador (BA) há mais ou menos cinco anos e só agora está chegando às demais cidades. Mas já há um bom número de cidades que oferece esse serviço, mas a sua expansão depende, em parte, de políticas públicas de concessões específicas para esse fim e mais opções de veículos que possam ser adaptados para essa demanda. No entanto, acho que, para os níveis de hoje, ela é equilibrada e satisfatória.

O que motivou a criação do Guia Turístico para Taxistas em BH, lançado em março deste ano? 
Como já disse, Belo Horizonte, sem querer defender a cidade onde moro, saiu na frente. Em 1994, foi lançado o primeiro curso preparatório para taxitas em BH. De lá para cá, todos os taxistas passaram pelo curso. No entanto, nem tudo que é ensinado é assimilado. Então, são bem-vindas todas as iniciativas que visem rememorar o aprendizado. E é esse o sentido que tem o guia para os taxistas em BH: para relembrar alguns conceitos de atendimento ou não deixar que sejam esquecidos e lembrar também os profissionais dos pontos turísticos que poderão ser ofertados aos usuários como opções de visita.

Há vontade de expandir a iniciativa para outras capitais?
Na oportunidade, eu estive presente e sugeri ao presidente do Conselho Regional do Sest Senat em Minas Gerais, Vander Costa, e ao presidente da BHTrans, órgão gerenciador de trânsito de BH, Ramon Victor Cesar, que o material fosse copiado e adaptado para oferecer às demais cidades da Copa. Foi uma ótima iniciativa que eu aplaudi.

Algo deveria ser revisto na realidade dos taxistas no país?
Sim, claro! Tem muita coisa a ser feita, mas há um certo desprezo oficial para com os taxistas. Do nosso lado, também existe a falta de organização e união. Os sindicatos estão falidos, as lideranças, desmotivadas e fracas diante da demanda de reivindicações da categoria que se recusa a financiar o fortalecimento das entidades e, assim, se omite na multidão à espera do bônus sem, contudo, suportar o ônus.
A legislação até bem pouco tempo era ultrapassada, e a recém aprovada possui vários equívocos que gera interpretações e contradições. Isso abre espaço para a especulação predatória e o envelhecimento da mão de obra. Por um lado, há muito o que ser feito no âmbito do Congresso Nacional e do Governo. Por outro, há que se trabalhar a mentalidade dos próprios taxistas e dos órgãos gerenciadores municipais.
Precisamos rediscutir o modal, encontrar soluções que agradem a maioria dos operadores de táxi, melhorar a qualidade do atendimento aos usuários e encontrar um meio termo entre os dispositivos constitucionais, o interesse público e o interesse dos taxistas.
 
 

 

Ana Rita Gondim

Agência CNT de Notícias

 

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