26/11/2014

Especialista da Universidade de Lisboa defende subsídios para o transporte público

Para Nuno Costa, melhoria da qualidade do serviço e da mobilidade urbana justifica criação de uma fonte de custeio para o setor.

 

Foto: Sergio Alberto Especialista da Universidade de Lisboa defende subsídios para o transporte público

O pesquisador da Universidade de Lisboa Nuno Costa defende a implantação de subsídios para o transporte público como alternativa para melhorar a qualidade do serviço e favorecer a mobilidade urbana. Palestrante do II Seminário Internacional de Mobilidade e Transportes, realizado em Brasília em outubro, ele lembrou que, em cidades europeias, o subsídio chega a aproximadamente 40% do valor das tarifas. No Brasil, com exceção de algumas cidades, esse aporte não existe.

Confira trechos da entrevista concedida por ele à Agência CNT de Notícias.

Por que subsidiar o transporte público?

Porque se trata do custo social do transporte: no fundo, não é só o usuário do transporte público que é beneficiário. Há outras pessoas que não vão utilizar o transporte público que também se beneficiam, desde os utilizadores do transporte individual, comerciantes, empregadores. Porque, senão, teremos valores tarifários altos e uma degradação da qualidade do transporte, e não é isso que se pretende. Por outro lado, a criação de subsídios também permite outros tipos de investimento em infraestrutura de longa duração, que possibilita a utilização de outros modais e a garantia de uma melhor adequação dos modos à procura pelo serviço de transporte.

Como devem ser pensadas essas soluções para as cidades?

A questão fundamental é adequar cada uma das situações das cidades à sua realidade de mobilidade. Ou seja, é importante percebermos como as pessoas se deslocam no seu cotidiano para que isso permita, de fato, intervir na oferta de transportes e responder a essa necessidade de deslocamentos dos habitantes. E, de acordo com essa procura, adequar as melhores respostas em termos modais e utilizar BRT, VLT ou metrô, por exemplo. Mas obviamente que isso tem custos enormes para a infraestrutura. Portanto, toda essa roupagem do transporte público também passa por aí: não podemos ter uma melhoria se não responder às necessidades. Tem que ser confortável, eficiente, permitir fazer deslocamentos com segurança e rapidez. Isso é que é importante no transporte público para fazer frente ao transporte individual.

Isso tem a ver com a qualidade de vida da população...

Claro, porque tem a ver com a questão do tempo restrito que as pessoas têm para se deslocar e para executar uma série de tarefas. Tenho que me deslocar nesse espaço e nesse tempo de forma mais confortável e eficiente. Quanto menos eu me sentir frustrado por não conseguir isso, ou por não fazer aquilo que eu queria fazer em determinado período de tempo, vou perceber uma melhora da qualidade de vida.

O senhor também atentou para a questão da importância da equidade do transporte público. O que isso significa?

É outra questão fundamental. Quando pensamos na sustentabilidade, temos a parte econômica, a parte ambiental e a parte social, que é a necessidade de pensar que o transporte público é para todos: mais velhos, mais jovens, homens, mulheres. No fundo, a resposta que o transporte tem e as funções de mobilidade têm que ser mais inclusivas. Se imaginarmos uma cidade fundamentalmente dependendo de transporte individual, estamos excluindo os mais velhos ou os mais jovens porque não podem dirigir, vamos excluir os mais pobres porque eles não têm condições de ter um carro, e o homem ou a mulher porque, havendo um veículo na família, o outro não consegue se deslocar.

Por que e como estimular o jovem a usar o transporte público?

Eu não posso pensar que um jovem diga que o transporte público não presta. Eles têm que perceber como normal o uso do transporte público, e isso acontece por meio da conscientização. Deve-se incutir o hábito de utilizar o transporte público. Isso é o que ocorre nas cidades europeias. Naturalmente que isso é uma questão de educação.

No Brasil, o incentivo econômico para a compra do carro próprio fez crescer muito a frota nos últimos anos. Mas o crescimento da quantidade de carros nas ruas não é um fenômeno apenas do Brasil. O senhor relatou que isso ocorreu também em Portugal. O que explica a opção pelo transporte individual?

Tem a ver com algumas questões relacionadas à modificação das bacias de emprego, dos locais para onde as pessoas se deslocam. As necessidades que o transporte público supria no passado, fazendo certas linhas, talvez não supra mais. Por isso, é tão importante saber o que as pessoas fazem, como são seus deslocamentos para planejar um sistema de transporte eficiente. A outra resposta para isso é a questão do tempo: as pessoas fazem cada vez mais atividades num mesmo intervalo de tempo, o que aumenta a complexidade nos deslocamentos diários e exige uma infraestrutura melhor.

Como o transporte individual deve ser tratado nesse contexto?

Não dá para descuidar do transporte individual. Por exemplo, numa área de baixo adensamento urbano, não dá para colocar transporte público porque é inviável economicamente. Então, tenho que pensar na infraestrutura do transporte individual. E, portanto, o que temos é fazer com que isso seja garantido pelo transporte individual.

 

Natália Pianegonda

Agência CNT de Notícias

 

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