01/10/2014

Conceito de cidade-aeroporto ganha fôlego no mundo

Pesquisador norte-americano, Joh Kasarda, criador da ideia da aerotrópolis, explica benefícios da construção de cidades em torno de aeorportos.

 

Foto: Divulgação Conceito de cidade-aeroporto ganha fôlego no mundo John Kasarda

​A criação de uma cidade ao redor de um aeroporto vem ganhando fôlego por todo o mundo. A chamada aerotrópolis (aero, de aeroporto, e pólis, do grego, cidade) se baseia na tese da proximidade da infraestrutura urbana aos terminais aéreos de cargas e de passageiros. O conceito, desenvolvido por John Kasarda, diretor do Centro Comercial Aéreo na UCN (Universidade da Carolina do Norte) e professor de Estratégia do Instituto Kenan (instituição ligada à universidade onde são realizadas pesquisas nas áreas de empreendedorismo, desenvolvimento econômico e competitividade global), prevê o desenvolvimento de uma região de grande importância econômica, tendo como ponto central um aeroporto, em que a integração modal para o transporte de passageiros e de cargas é essencial.

De acordo com Kasarda, uma aerotrópolis é uma sub-região metropolitana, cuja infraestrutura, uso da terra e economia são centrados em um aeroporto, oferecendo a conectividade rápida de seus negócios a seus fornecedores, clientes e parceiros de empresa, em nível nacional e mundial. “Uma definição simplificada é: uma cidade construída em torno de um aeroporto”, afirma ele. Kasarda tem mais de cem artigos e dez livros sobre infraestrutura da aviação, logística e desenvolvimento urbano publicados.

Seu livro mais recente, “Aerotrópolis: o novo modo como vamos viver” (coautoria com Greg Lindsay), foi destaque na revista “Time”, em 2011, como uma das “dez ideias que vão mudar o mundo”. Em 2013, Kasarda também foi classificado como “um dos cem maiores inovadores de cidades de todo o mundo” pela revista “Future Cities”. No Brasil, ele desenvolve um projeto em parceria com o governo de Minas Gerais para a implantação da aerotrópolis no Aeroporto Internacional Tancredo Neves–Confins, em Belo Horizonte, além de já ter contato com outros órgãos também interessados no projeto. Nesta entrevista, concedida à revista CNT Transporte Atual, ele detalha o conceito de aerotrópolis. Acompanhe os principais trechos.

Quais as características principais de uma aerotrópolis?

A aerotrópolis é composta do aeroporto e dos negócios dependentes da aviação periférica e empreendimentos residenciais associados. Quando falo em aviação dependente, refiro-me a empresas que são capazes de operar, principalmente, por causa da conectividade nacional e global proporcionada pelo transporte de passageiros e de carga. A aerotrópolis também contém um conjunto completo de instalações comerciais que apoia os negócios dependentes da aviação de carga e dos milhares de viajantes aéreos que passam pelo aeroporto anualmente. Estão incluídos entre eles, a expedição, a logística de terceiros, as instalações de armazenamento e distribuição, hotéis, salas de exposições, salas de reuniões e complexos, edifícios de escritórios para executivos de viagens aéreas intensivas e profissionais, com lojas, restaurantes, lazer, entretenimento e locais de turismo.

No mundo, esse conceito já está sendo empregado? Que exemplos o senhor citaria?

Há mais de 40 aerotrópolis em desenvolvimento em todo o mundo. Bons exemplos incluem aquelas dentro e ao redor dos aeroportos de Amsterdã, Pequim, Dalas, Dubai, Hong Kong, Memphis e Seul.

Qualquer aeroporto pode se tornar uma aerotrópolis? Existe uma área com tamanho específico para se criar essa estrutura?

Nem todo aeroporto pode gerar uma aerotrópolis. Para a implantação, deve haver rotas aéreas suficientes (com pelo menos algum serviço internacional), economia local ou mercado de tamanho suficiente para criar uma demanda significativa para passageiros e cargas, uma força de trabalho com habilidades necessárias para atender às indústrias dependentes da aviação e um local de apoio e governo do Estado. Também deve haver uma boa conectividade de superfície para o aeroporto, de interseções metropolitanas-chaves.

O Brasil tem vocação para a implantação de aerotrópolis? Onde?

Os melhores locais são as principais regiões metropolitanas do Brasil, onde já existem aeroportos internacionais com espaço para novos desenvolvimentos em torno deles. Em alguns casos, onde o espaço nas proximidades é limitado, pode haver uma reconversão industrial perto do aeroporto para permitir novos negócios voltados à aviação.

Na implantação de uma aerotrópolis, como devem ser divididas as responsabilidades do poder público e da iniciativa privada?

Uma aerotrópolis não pode se desenvolver sem investimento público substancial e também do setor privado. Ela exige um novo reforço coordenado desses investimentos, por meio da comunicação eficaz, cooperação e colaboração entre os intervenientes dos dois setores. O governo é normalmente responsável pelo amplo planejamento da aerotrópolis, bem como de sua infraestrutura básica e serviços públicos de superfície. Enquanto o setor privado é o principal responsável por investimentos de capital nos negócios. Em alguns casos, as PPPs (Parcerias Público-Privadas) podem ser criadas tanto para infraestrutura, quanto para o desenvolvimento das facilidades dos negócios.

Quais os benefícios econômicos e sociais das aerotrópolis?

Os benefícios econômicos que ela fornece são: conectividade local, nacional e global mais eficiente, que reduz os custos de empresas, aumenta a produtividade e expande o alcance de mercado. Isso também contribui para aumentar o investimento, o comércio, os empregos e a prosperidade global da região metropolitana. Os benefícios sociais de uma aerotrópolis, devidamente planejada e desenvolvida, incluem trajetos mais curtos e mais rápidos para o trabalho e para casa, volumes reduzidos de tráfego e das emissões, que contribuem para a sustentabilidade ambiental, e a sustentabilidade social, por meio da localização e do design adequados da comunidade residencial.

Quais as vantagens que a aerotrópolis traz para o transporte de passageiros e de cargas?

As principais vantagens são o trânsito mais rápido e eficiente, que contribui para uma melhor mobilidade local, regional, nacional e global.

A implantação das aerotrópolis está muito ligada ao transporte aéreo de cargas, mas, no Brasil, essa atividade ainda é muito pequena na divisão da matriz de transporte. Isso pode ser um problema? Como solucioná-lo?

Na verdade, o Brasil tem um mercado substancial de carga aérea, o maior da América do Sul e um dos maiores do mundo. Enquanto outras formas de transporte de cargas no Brasil podem ser consideravelmente maiores em peso, a carga aérea contribui com uma porcentagem muito elevada do valor do comércio do Brasil (importações mais exportações). Muitas das principais indústrias do país, tais como equipamento aeroespacial, microeletrônica, farmacêutica, autopeças e perecíveis de alto valor (peixe fresco, flores frescas, frutas frescas etc) não poderiam existir sem o serviço de carga aérea da nação.

Sempre se falou na necessidade de um distanciamento entre o aeroporto e a cidade por questões de segurança. O que mudou agora para que se defenda a construção de uma cidade ao redor de um aeroporto?

O planejamento da aerotrópolis é voltado para a segurança. Ele coloca as comunidades residenciais e os edifícios altos fora das rotas de voo das aeronaves e fora das zonas de outros desenvolvimentos para minimizar os riscos de acidentes.

Como está o desenvolvimento do projeto da aerotrópolis de Confins, em Minas Gerais?

O desenvolvimento dentro e em torno do Aeroporto Internacional Tancredo Neves-Confins e da aerotrópolis da Grande Belo Horizonte está progredindo. Em menos de dez anos, desde que o modelo foi abraçado pela liderança do governo, a infraestrutura de transporte de superfície para o aeroporto foi melhorada, e grandes obras ainda estão em andamento. A zona do aeroporto industrial foi desenvolvida e está operando. A área de manutenção de aeronaves da Gol foi construída, contribuindo com a geração de mais de 1.000 postos de trabalho, e grandes grupos comerciais evoluíram na região do aeroporto. Funcionários do governo local e de Minas Gerais estão colaborando com o setor privado e as principais universidades da região para facilitar novos investimentos na aerotrópolis. O Fashion City Brasil, o maior showroom do mercado de moda de vestuário da América do Sul, a apenas cinco minutos do terminal do aeroporto, vai abrir nos próximos meses. Tão importante quanto, a Cidade Administrativa do Estado de Minas Gerais, empregando cerca de 16 mil pessoas, foi inaugurada há três anos, no corredor principal da aerotrópolis (Linha Verde), que liga o terminal à cidade de Belo Horizonte. Tudo isso está levando mais desenvolvimento ao longo do corredor da aerotrópolis Belo Horizonte.

O aeroporto de Confins tem a infraestrutura necessária para a implantação de uma aerotrópolis?

O terminal está se expandindo rapidamente e melhorando a sua infraestrutura para se tornar uma poderosa aerotrópolis. Isso inclui um segundo terminal de passageiros, uma segunda pista de pouso e decolagem, áreas atualizadas de carga, e melhores estradas internas. Sob a nova concessão do operador aeroportuário, outras grandes melhorias de infraestrutura aeroportuária e instalações estão em obras.

Em quanto tempo a aerotrópolis de Belo Horizonte estará madura, em condições de competir mundialmente?

Desenvolver uma aerotrópolis é mais como correr uma maratona do que uma disparada de cem metros. Dada a grande escala e o escopo econômico da aerotrópolis de Belo Horizonte, levará pelo menos duas décadas para ela alcançar seu potencial competitivo total. No entanto, mesmo os gigantes nascem pequenos e, conforme acima mencionado, grandes progressos já foram feitos com efeitos competitivos positivos. Eu teria a expectativa que isso fosse acumulativo com efeitos concorrenciais globais significativos sendo vistos nos próximos cinco anos.

Com a implantação da aerotrópolis em Confins, qual deve ser o futuro do aeroporto da Pampulha?

O aeroporto da Pampulha nunca poderá sustentar o desenvolvimento de uma aerotrópolis, nem tornar a região competitiva a nível mundial. Embora conveniente, é muito pequeno para essa função e um tanto perigoso, dada a densidade de desenvolvimento de seus arredores. Sua aparência é apertada, um pouco sem graça, e não oferece uma boa primeira impressão de Belo Horizonte para os seus visitantes aéreos que passam pelo aeroporto. Também atrai o tráfego do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, necessário para esse aeroporto continuar a desenvolver novas rotas. Em minha opinião, a Região Metropolitana de Belo Horizonte seria mais bem servida, eliminando o tráfego aéreo comercial da Pampulha e convertendo-o em um aeroporto de aviação geral que sirva táxis aéreos, jatos executivos e demais aeronaves particulares para executivos. O terreno onde o aeroporto fica é tão bem posicionado e valioso que a Infraero poderia ter a sua própria mina de ouro se fosse para fechar o aeroporto e vender a terra para uso de desenvolvimento de qualidade mista comercial e residencial ou firmar uma PPP com o setor privado para desenvolver essa terra como outros aeroportos importantes têm feito na Europa.

Além da consultoria que o senhor está prestando para o governo de Minas Gerais no desenvolvimento da aerotrópolis de Belo Horizonte, outros Estados brasileiros já procuraram pelo seu trabalho?

Sim, tenho falado com outros operadores aeroportuários e governos no Brasil, mas a única relação concreta que eu tenho no momento é com a Secretaria do Estado de Minas Gerais de Desenvolvimento Econômico.


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Livia Cerezoli

Agência CNT de Notícias

 

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