15/10/2014

Reaproveitamento de óleo usado gera impacto também na economia brasileira

Pesquisador da Embrapa estima em redução de gastos de R$ 5 milhões ao reutilizar óleo de fritura na composição do biodiesel.

 

Foto: Embrapa Agroenergia/Divulgação Reaproveitamento de óleo usado gera impacto também na economia brasileira

Hoje, apenas 1% do óleo de fritura é reaproveitado e utilizado na composição do biodiesel no Brasil. Só esse valor gera um impacto econômico de algo em torno de R$ 5 milhões de material que iria para o lixo. Além disso, o uso do biodiesel reduz a emissão de gases de efeito estufa (GEE) gerados pela queima de combustíveis fósseis. A mistura obrigatória B7 (7% de biodiesel adicionado ao diesel fóssil), recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, evita a emissão de aproximadamente 9 toneladas de CO² por ano, o equivalente ao plantio de cerca de 60 milhões de árvores/ano.

O pesquisador da Embrapa Agronenergia José Dilcio Rocha falou com a Agência CNT de Notícias sobre o processo de coleta e purificação do óleo usado, o seu acréscimo ao biodiesel, as vantagens do combustível e as dificuldades enfrentadas para a implantação generalizada no país.

Como se inicia esse trabalho de utilizar o óleo de fritura na fabricação do biodiesel?

Ele tem duas etapas principais. Uma é a coleta, que é distribuída na cidade. É semelhante ao que acontece com a coleta de lixo urbano. Então, é um sistema de coleta por bombonas [reservatório usado para armazenamento de produtos químicos] que são deixadas e depois são trocadas, uma cheia por uma vazia, em estabelecimentos comerciais, como restaurantes, e também em condomínios residenciais e com o envolvimento de escolas. Esse material sairia das casas e iria até as escolas, onde seria coletado. Essa é uma etapa da logística bem complexa porque tem que ter linhas de coleta.

Após a coleta, como se dá o processo de mistura dos materiais?

Para transformar esse material em biocombustível, ele passa por etapas de purificação. É retirada toda a umidade que ele absorve durante o uso na fritura, assim como são retirados também os materiais contaminantes, como farinha e restos de alimento. Isso tudo tem que ser retirado. A partir daí, o material é tão bom quanto o novo. E é feita a transesterificação, que é a reação química entre o óleo vegetal (o óleo de fritura) e o metanol, que é um álcool. Isso acontece tudo num meio básico. A soda cáustica atua como catalisador dessa reação. É semelhante à produção de sabão, só que nesta tem água. Para fazer biodiesel, tem que ser tudo anidro, sem água nenhuma.

E isso já é feito no Brasil? Como está hoje esse processo?

Grandes empresas costumam ter programas próprios de coleta de óleo de fritura usado por uma questão mesmo de envolvimento com a comunidade e, aí, o óleo deles se mistura ao óleo novo e fica diluído. Você pode ter um consumo de grande quantidade de óleo usado de forma que ele o reaproveite e, assim, não tenha um impacto na produção. E você também consegue retirar esse material da rede de esgoto. Há vários casos pelo Brasil.

Mas são mais ideias empresariais ou o governo está envolvido em programas desse tipo?

Não existe ideia de governo. A ideia da Empraba é, portanto, popularizar essa situação. Quando envolve trabalho em parceria com empresas de saneamento, o processo é muito complicado, pois o negócio principal deles é vender água tratada. Então, isso costuma ter um interesse muito baixo.

Mas, no Distrito Federal, a parceria da Embrapa com a Caesb [Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal] tem tido muito sucesso. No DF, já é feita a coleta e agora precisa ser feita a planta [industrial, fábrica] para fazer biodiesel. É feita até a purificação do óleo, só precisa somá-lo ao biodiesel. A transesterificação está na fase de instalação.

São várias as vantagens. Quais podem ser destacadas?

As vantagens são as seguintes. Primeiro, você tira um resíduo líquido urbano do esgoto ou da própria coleta de lixo que, às vezes, as pessoas colocam em embalagens plásticas e jogam no lixo ou jogam diretamente no ralo da pia. Você está reaproveitando um resíduo. Depois, você produz um biodiesel, um combustível tão bom quanto o que é utilizado a partir de com óleo novo. Não há diferença nenhuma. E é também uma campanha educativa porque quem vai salvar o planeta são as crianças. Nós já destruímos suficientemente.

Diante de tudo isso, porque a iniciativa não é praticada de forma generalizada?

Por causa da dificuldade da coleta e conscientização das pessoas.  

E qual a importância do reaproveitamento desse material para o setor de transporte?

Se todo o óleo usado fosse coletado e transformado em combustível, isso poderia inclusive ter um impacto econômico importante. Hoje 1% do biodiesel já é a partir de óleo de fritura no Brasil. Isso é feito em misturas, não há plantas [industriais, fábricas] dedicadas para fazer biodiesel. Então, por exemplo, o Brasil produz 2,5 bilhões de litros de biodiesel. 1% disso é a partir de óleo de fritura, então, são 2,5 milhões e meio de litros. Se você colocar que ele é vendido nos leilões a R$ 2 o litro, você teria R$ 5 milhões utilizados a partir de óleo e fritura. É pouco, mas é valor de um material que iria para o lixo.

Isso é feito em outros países?

Tenho algumas notícias de algo parecido no Japão e na Espanha.

Como esse processo pode ser avaliado no Brasil?

Eu acho que o Brasil está bem. Acho que temos feito bastantes ações nessa área. Isso também por causa do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Mas o óleo de fritura é um resíduo urbano e precisa de toda essa logística reversa, que não é fácil. Mas acho que tem sido feito, sim. Visitei muitas empresas fazendo isso em São Paulo e Belo Horizonte (MG), que coletam bastante óleo.

O que falta, então, para o Brasil nesse aspecto?

Seria bom que as empresas de saneamento se envolvessem em projetos dessa natureza. Essas empresas poderiam ser realmente de saneamento básico, poderiam cuidar da água, tanto da distribuição quanto da coleta de esgoto, mas poderiam também ser empresas para destinação do lixo urbano, com geração de energia a partir desses materiais e com toda a parte de limpeza urbana. Isso daí já tem modelos no mundo. Lá, elas são praticamente cuidadoras de toda a parte de limpeza, tratamento e destinação dos resíduos. As coisas aqui são mais segmentadas. E isso traz uma série de dificuldades porque no que está nas mãos das empresas públicas, às vezes, não há o interesse de diversificar o negócio. Na área privada, que já é tão bem remunerada, não há interesse de gastar com um trabalho assim. Talvez falte um pouco de políticas públicas bem direcionadas para essa questão. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos é um política importante, tem muita dificuldade de implantação, mas tem que ser por um caminho assim.

 

Ana Rita Gondim

Agência CNT de Notícias

 

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