23/04/2014

Centro Modelo de Reciclagem de veículos e caminhões será instalado em Minas Gerais

Projeto-piloto deve começar a operar em 2015, na região metropolitana de Belo Horizonte.

 

Foto: Divulgação Centro Modelo de Reciclagem de veículos e caminhões será instalado em Minas Gerais

Em 2015, Minas Gerais deve ganhar o primeiro Centro de Reciclagem para veículos e caminhões do país, chamado de Mina Urbana Brasil. Idealizada pelo engenheiro e professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), Daniel Castro, a iniciativa pretende atender à demanda de mais de 90 mil veículos que precisam ser reciclados no estado.

Autor do livro ‘Reciclagem e Sustentabilidade na Indústria Automobilística’, Castro conversou com a Agência CNT de Notícias e falou sobre o projeto de construção do Centro e sobre importância de discutir o tema da reciclagem de veículos no Brasil. Também comentou como o Brasil pode avançar no tema e disse quais são os países em que o assunto é tratado com mais eficiência.

Confira a entrevista:

No livro, o senhor elogia a experiência do Japão com a reciclagem de veículos e compara com o Brasil. Em que estágio o país está?

A gente está em um estágio bem inicial, o tema começou a ser discutido. Se a gente comparar a situação com os últimos anos, as discussões estão maiores, não só na parte técnica, mas na parte política. Precisamos desenvolver uma política adequada no Brasil e está se pensando em criar um marco regulatório no país de uma forma mais intensa do que havia há anos atrás. O país está avançando no sentido de ter consciência do problema, buscando soluções. Exemplos disso são as leis estaduais. São Paulo lançou uma lei que define claramente o que deveria ser o processo de reciclagem de veículos e estabelece regras para que isso aconteça.

Falta incentivo do governo? Uma legislação mais rigorosa?

Sim, com certeza, esta faltando. Um dos motivos dos nossos grupos de trabalho é, precisamente, incentivar a discussão destes marcos regulatórios. Mas as leis ainda são muito primitivas para um veículo, que é um item de consumo de maior valor agregado. Não existe nada que se consuma e que tenha maior valor agregado que um veículo. Reciclar o veículo é a uma última etapa em termos regulatórios, primeiro deve se trabalhar, por exemplo, a reciclagem de eletrodomésticos. No Japão o processo foi assim, e não tem como ser diferente no Brasil.

Como vai funcionar o Centro Modelo de Reciclagem de Veículos?

Este projeto está tomando forma, estamos bastante avançados e chamamos o trabalho de Mina Urbana Brasil. O nome é inspirado na filosofia oriental porque a reciclagem de veículos é considerada uma ‘mina’ de vantagens. O projeto consiste em criar uma planta, uma unidade piloto para reciclagem dos materiais veiculares a partir do modelo japonês, além de um centro tecnológico com a finalidade de treinar pessoas, de incentivar o desenvolvimento de mão de obra para essa linha de reciclagem.

Estamos negociando com o Cefet a criação deste centro de educação técnica. Precisamos, ainda, de alguma ajuda econômica, de investimentos. A prefeitura de Pará de Minas, na região metropolitana de Belo Horizonte, nos cedeu um espaço para erguer o projeto.  A ideia é que a planta-piloto comece a operar no ano que vem. Estamos bastante avançados na parte de financiamento de equipamentos e o terreno está garantido.

Em relação aos veículos pesados, a reciclagem também é uma alternativa viável? O tema será contemplado com a abertura do Centro?

Aqui em Minas está se discutindo a possibilidade de criar um centro de reciclagem de caminhões, é uma prioridade do estado.  O número de veículos que deveriam ser processados é grande, é preciso engenharia adequada para o desmanche, a separação dos materiais. O Caminhão tem um volume maior de materiais ferrosos e outros componentes que podem ser reaproveitados.

Não estamos deixando de lado a ideia de criar um centro que recicle veículos e caminhões. Seria interessante estender esse trabalho para os veículos pesados.

Quais as vantagens do processo da reciclagem?

Essa avaliação depende muito da profundeza do processo que será realizado.  Em relação à parte econômica, o impacto financeiro é enorme. Um veículo convencional, por exemplo, é formado por 60% de aço, que é 100% reutilizável, assim como outros metais como o alumínio e o cobre. O aço reciclado custa metade que o aço extraído da mineração. Existe uma enorme redução de custos.

Para se ter ideia, o objetivo é que o projeto-piloto do Centro de Reciclagem sobreviva apenas da venda de sucata metálica dos veículos. Apenas isso seria possível para dar início ao trabalho.

Quais países desempenham um bom trabalho, que poderia servir de inspiração ao Brasil?

Os países da comunidade europeia estão trabalhando muito forte neste tema. Existe alguma dificuldade porque são vários países, é preciso criar um marco regulatório para todos os países, de forma coordenada. Os Estados Unidos também desenvolvem um bom trabalho, mas estão um estão um pouco atrasados em relação à comunidade europeia, os marcos regulatórios não são muito detalhados.

No Japão, a reciclagem dos veículos deve chegar a 95%, apenas 5% dos materiais vão para aterros. Na comunidade europeia, pretendem chegar a estes 95% até 2020, enquanto os Estados Unidos está na faixa dos 80%.

A experiência desses países mostra que o Brasil ainda tem muito para avançar...

Dos materiais veiculares, recicla-se apenas 2% no Brasil. As sucatas dos veículos ficam depositadas, durante décadas, em pátios de departamento de trânsito, sem condições de serem processados. Outros são levados para desmanches ilegais. O Brasil tem números sobre reciclagem de veículos que a gente nem conhece.

 

Rosalvo Streit

Agência CNT de Notícias

 

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