17/07/2014

Economista destaca que investimentos precisam acontecer no Brasil

Segundo Marco Aurélio Pereira Dias, ao atravessar rodovias, ferrovias ou portos, o produto nacional perde competitividade.

 

Foto: Arquivo pessoal Economista destaca que investimentos precisam acontecer no Brasil

A melhoria da eficiência da gestão é fundamental para que a infraestrutura de transporte do Brasil possa de fato se desenvolver. A opinião é do economista e mestre em administração Marco Aurélio Pereira Dias. Ele é professor universitário, diretor comercial da empresa Frette Logística & Multimodal Ltda. e autor de vários livros e artigos sobre transporte e logística. Dias destaca que os investimentos precisam acontecer no Brasil e questiona dificuldades em relação ao excesso de órgãos e legislações. Para ele, é necessário que os novos profissionais que atuam nessa área entendam mais sobre as especificidades de todos os modais detransporte. O economista e administrador falou ainda sobre outros temas, como carência de profissionais de logística e renovação de frota. Para Dias, é importante criar mecanismos para que o caminhoneiro autônomo consiga financiamentos para obter um veículo novo. Leia a entrevista a seguir.
 
No seu último livro - “Logística, Transporte e Infraestrutura” – há um enfoque voltado para os novos profissionais que atuam na logística e no transporte? Qual foi a abordagem?
 
Existe uma carência de profissionais de logística, tanto para as indústrias como para o comércio. Começamos a perceber também que mesmo os próprios profissionais da área tinham um grande conhecimento sobre o setor que atuavam, mas precisavam de um conhecimento mais amplo de outros segmentos e de outros modais.Percebe-se também que os principais livros e materiais de apoio são os traduzidos, principalmente os americanos, com outro conceito, outras realidades e outras necessidades.
 
Qual questão fundamental os novos profissionais da logística e do transporte precisam compreender?
 
Acredito que precisam conhecer e compreender todos os modais. A intermodalidade no Brasil é uma realidade e será cada vez mais crescente. Em um país como o Brasil, de dimensões continentais, o conhecimento e a exploração da intermodalidade são muito importantes para o profissional de logística.
 
Qual é o maior entrave logístico atualmente no país?
 
Nos últimos anos, a globalização colocou a logística em um novo patamar. Com o grande aumento da circulação de mercadorias, com a pressão para reduzir custos e aumentar vendas, as empresas voltaram os olhos para a importância de desenvolver uma cadeia de suprimentos eficiente. Isso acarreta a necessidade de coordenação de diversas e diferentes partes envolvidas no processo produtivo. Do fornecedor de matériaprima e de componentes a empresas responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos, passando pela operação de frotas, pelas coletas e entregas e pelo transporte por diversos modais. Encontramos um fator de complicação, que são as legislações de cada setor, tanto no âmbito estadual como no federal. Até mesmo legislações específicas para cada modal. Essa situação se estende também, e com maior amplitude, ao comércio exterior, que é altamente influenciado pela logística e por suas ramificações.
 
O que é preciso acontecer para o maior desenvolvimento dessa área?
 
Os necessários e futuros investimentos precisam acontecer no Brasil para ampliar a rede e a infraestrutura rodoviária, ferroviária, aquaviária e aérea, melhorando a matriz de transporte brasileira, hoje, estruturada basicamente nas rodovias. O Brasil ainda está engatinhando em seu processo logístico. Essa ainda é uma atividade nova para muitas empresas, que enfrentam também a carência de profissionais na área. Mas nosso grande problema é a infraestrutura disponível para fazer uma logística bem-feita. Podemos até saber como fazer, mas esbarramos muitas vezes na falta das ferramentas adequadas. Ou encontramos ferramentas quebradas, mal-adaptadas para o uso correto.
 
Quais os prejuízos mais evidentes dessa infraestrutura precária?
 
A infraestrutura precária tem provocado uma expansão sem limites nos custos logísticos. As empresas têm uma despesa extra por causa das péssimas condições das estradas, burocracia documental, sucateamento dos portos, falta de capacidade das ferrovias e despesas com armazenagem. A grande maioria das empresas brasileiras não perde para nenhuma outra em termos de custos de fabricação, se considerarmos da porta da fábrica para dentro. Mas, ao atravessar rodovias, ferrovias ou portos, o produto nacional perde competitividade e, muitas vezes, não consegue disputar nem com o seu concorrente estrangeiro no mercado interno.
 
A burocracia e o excesso de órgãos no setor de transporte são outros problemas graves?
 
Não podemos pensar em eficiência de cadeia logística sem passar por uma revisão intensa da legislação brasileira que atravanca diretamente a logística. Não existem importações de tecnologias, treinamentos de pessoal, sistemas, investimentos em equipamentos mais eficientes que deem conta de uma legislação aduaneira desatualizada, que deem conta da lentidão de Antaq, ANTT, Ministério dos Transportes, Dnit, Secretaria Especial de Portos, Receita Federal, diversas Companhias Docas, PAC 1, PAC 2, Lei dos Portos, reavaliações de concessões portuárias, rodoviárias e ferroviárias. Enfim, de tudo isso que é envolvido com o problema da estrutura logística brasileira.
 
Em 2015, qual o principal problema em relação à infraestrutura de transporte precisa ser priorizado pelos governantes?
 
Acredito que será a administração pública. Mas também acredito que é um problema para 2015, 2016, 2017 e para bem mais para frente. Para termos boa eficiência logística, precisamos de infraestrutura adequada. Quando falamos de infraestrutura, falamos de administração e poder público, porque isso está travestido em concessão, arrendamento, privatização ou construção propriamente dita. São muitas etapas para construir e licitar, tendo o Tribunal de Contas da União, a Controladoria Geral, fiscalizações e licenças de impactos ambientais, Funai, Ministério Público da União, procuradores gerais e muitos órgãos de fiscalização. Fica muito difícil concluir qualquer projeto dentro de prazos e orçamentos. Aliado a isso, há uma total incompetência de gestão nas obras para infraestrutura. Essa incompetência está generalizada. Temos inúmeros exemplos, como a Transnordestina, a profundidade do porto de Santos, a transposição do rio São Francisco, a implantação do pacote logístico de agosto de 2012. O que precisamos na logística e na infraestrutura é, fundamentalmente, mais eficiência governamental.
 
O senhor considera que a renovação da frota de caminhões é importante para o maior desenvolvimento do setor de transporte no país?
 
Com certeza, isso é um fato muito importante e necessário. Por mais alguns bons anos, o Brasil ainda será rodoviarista. Mesmo com o crescimento da intermodalidade, as pontas serão atendidas pelo caminhão. Mas a renovação da frota deve estar atrelada ao financiamento mais acessível ao autônomo, não somente às empresas. O crescimento do autônomo foi enorme nos últimos 15 anos. O problema é o acesso desse autônomo ao financiamento de um caminhão novo. O nível de exigência documental e de garantias é tão grande que é quase impossível conseguir a liberação.
 
O que é necessário para que o Brasil renove a sua frota de caminhões?
 
É necessário garantir acesso a financiamento, com outros critérios de garantias reais. Os juros menores do mercado de financiamento de caminhões são os do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Um motorista autônomo que já tem um caminhão e quer trocar por um novo não consegue acesso ao financiamento do BNDES.
 
Qual a visão do senhor sobre o uso da cabotagem no país?
 
A cabotagem é uma realidade na estrutura logística brasileira para a grande maioria dos grupos empresariais. Ela já é utilizada por grande parte das cadeias logísticas. A cabotagem em contêineres é uma solução multimodal, operando principalmente com o modal rodoviário nas curtas e médias distâncias e com o marítimo nas longas distâncias.
 
O que precisa ser feito para estimular esse tipo de transporte?
 
Existe ainda todo um trabalho que precisa ser feito e acredito que está sendo desenvolvido, principalmente pela Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem), para a redução da burocracia – tanto na entrega de um contêiner cheio no terminal como na devolução do vazio ou no agendamento para a retirada do contêiner vazio ou cheio. Ao somar pequenos problemas, há um travamento do processo.
 
Os principais problemas para desenvolver o transporte no Brasil estão no planejamento ou na execução?
 
Planejamento e execução representam um binômio que não se pode separar. Mas também sabemos que, por melhor que seja o planejamento, sem uma adequada execução, não tem planejamento que resista. A história nos mostra que sempre tivemos a intenção de um planejamento, um norte, que pode até ter sido inexequível. Há algum problema em nossas execuções que atrapalha todo o planejado. Podemos dar alguns exemplos na história do Brasil de planejamentos e boas intenções ligadas a transporte e infraestrutura, mas que acabam não conseguindo realizar o que é necessário. Recentemente, foi criada a EPL (Empresa de Planejamento e Logística). Tem a Secretaria Especial de Portos e outros órgãos criados ao longo de anos. Tem o PNLT (Plano Nacional de Logística e Transporte), que propõe diversas obras de infraestrutura. Verifica-se facilmente que o nosso problema não é falta de planejamento. Tenho um levantamento e estudo, desde a abertura dos portos por Dom João, com todas as autarquias, ministérios, conselhos, órgãos, secretarias, convênios, superintendências, conselhos, comissões, grupos executivos. Falta nome para batizar tudo que já foi criado para planejar, organizar e dar eficiência ao transporte brasileiro.
 
Qual seria o principal problema então? Por que essa execução não acontece da forma que se tem planejado?
 
Todo o nosso represamento logístico está em infraestrutura. Tudo que é intralogística funciona muito bem. Quando vai para fora, para o transporte (em qualquer modal), as dificuldades começam a se multiplicar. Essa característica é fortemente percebida na infraestrutura rodoviária, portuária, aérea e ferroviária. O cipoal de legislação governamental nesses setores trava as decisões, impõe o envolvimento de órgãos diversos. Existe também um travamento governamental entre a relação público x privado. Algo como: não faço, não deixo ninguém fazer ou complico a vida de quem queira. Acho que na grande maioria das vezes a execução não sai como o planejado
por falta de gestão, de confiança e de competência governamental.

 

Cynthia Castro

Agência CNT de Notícias

 

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