27/08/2014

Presidente da ANTF destaca desafios com novo modelo de concessões

Gustavo Bambini falou sobre mudanças e perspectiva de investimentos na ampliação da malha.

 

Presidente da ANTF destaca desafios com novo modelo de concessões Gustavo Bambini, presidente da ANTF

Há aproximadamente dois anos o governo federal lançou o PIL (Plano de Investimentos em Logística), com o objetivo de, no setor ferroviário, ampliar a malha do país em 11 mil quilômetros e permitir investimentos de R$ 99,6 bilhões. Com o anúncio, veio também a proposta de alterar a forma de concessão e gestão das ferrovias. O novo modelo prevê que os responsáveis pela construção e manutenção ferroviária não são também os operadores. Por isso foi criada a figura do OFI (Operador Ferroviário Independente). Para garantir segurança a investidores, a partir de agora caberá à Valec comprar a capacidade operacional da ferrovia. 

As incertezas diante do novo modelo permanecem. No entanto, para o presidente da ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), Gustavo Bambini, os desafios que surgirem devem ser superados. Com expectativa positiva para os próximos anos, ele avalia que, embora o modelo seja distinto do que está atualmente em vigor, em que as concessionárias são responsáveis pela infraestrutura e também operam as ferrovias, os desafios devem ser superados e haverá novas oportunidades para as empresas que atualmente são responsáveis pela gestão da malha ferroviária brasileira. 

Em dois anos ainda não pudemos ver projetos do PIL sendo concretizados. Ainda há incerteza por parte das empresas, mas o governo depende delas para viabilizar os investimentos. O que você avalia que é necessário para reduzir essas distâncias e garantir que as parcerias ocorram? 

Qualquer investimento em malha ferroviária, por ser pesado em termos de recursos, sempre vai depender do auxílio do setor privado. Essa parceria entre os setores público e privado é fundamental para que as obras públicas do setor ferroviário saiam do papel e eu acredito que o programa do governo federal trabalha nesse sentido. As primeiras manifestações públicas de interesse já ocorreram. O grande desafio será conciliar esse modelo com as atuais concessões vigentes. Mas nós estamos otimistas com essa possibilidade.

Quais as principais questões que surgem como parte desses desafios?
Evidentemente que o modelo novo, por tratar de forma diferente o operador ferroviário, daquele que vai construir a malha, vai ter algumas questões diferentes. Isso porque, no modelo vigente, o operador ferroviário é também o operador que gera manutenção e garante a viabilidade da malha. Isso traz diferenças e essas diferenças vão aparecer. Quando essa figura do operador ferroviário independente se estrutura, é possível e é necessário que entre nas concessões vigentes. Mas eu não vejo isso com maus olhos. Pelo contrário, acho até que é uma oportunidade para as atuais concessões, caso queiram se tornar operadores ferroviários independentes, poder acessar essa nova malha, chegar a distâncias maiores e, com isso, diluir o valor do frete e tornar o nosso modal mais competitivo. 

Quais são as prioridades em termos de investimento, na avaliação do setor?
A Ferrovia Norte-Sul é, com certeza, a espinha dorsal do nosso setor. Se a gente conseguir fazer essa ligação, e o governo está trabalhando com ela, e conseguir justamente ligá-la com a atual malha existente, vai permitir que as atuais concessões adentrem essa malha e percorram distâncias maiores, até para conquistar este mercado que hoje está chegando ao Porto de Santos por caminhões. E muitas vezes precisamos, para conquistar certos segmentos, oferecer transporte intermodal, e isso vai ser mais possível com a construção da Norte-Sul.

Quanto ao interesse dos empresários, para seis projetos a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) recebeu 81 manifestações de interesse para elaboração dos estudos. O senhor visualiza um momento diferenciado, mais maduro para que os investimentos sejam efetivados?

Eu acredito que as manifestações de interesse que apareceram vieram para ficar. O setor vai crescer muito com isso. A malha ferroviária não pode estar restrita a uma região do país e os portos de escoamento da nossa produção não podem ser apenas do Sul e do Sudeste. Nós precisamos do Norte, do Nordeste, e temos uma riqueza muito grande para exportar, para levar como carga para portos nessas regiões. As manifestações públicas que ocorreram contribuem para que o projeto do governo ganhe corpo e saia do papel.

Com relação aos investimentos estrangeiros, em que mercados o setor vê maior possibilidade de atração de interesse? 
Os chineses são experts em fazer ferrovia. É muito gratificante poder contar, não só com o aporte financeiro que farão, caso venham a ganhar alguns leilões, como também com todo o conhecimento que têm na construção de uma malha que ligue o Brasil, um país de dimensões continentais, como é o deles. Os russos também, com grande expertise nesse modal, vão colaborar bastante com o novo modelo e com o modelo vigente. 

Há alguma medida possível para que eles cheguem ao mercado brasileiro com mais rapidez?
Eu acredito que vendermos bem o país no mercado externo. O encontro que a presidente Dilma Rousseff promoveu no Brasil, do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ajudou muito, trouxe os chefes de estado para cá e proporcionou um espaço importante de discussão do setor. Acho que esse é o caminho, a condução de uma política pública focada no segmento, que eu acho que está ocorrendo. ​​

 

Natália Pianegonda

Agência CNT de Notícias

 

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