10/09/2014

Copa do Mundo ampliou relações comerciais para mais de 80 setores da economia

Presidente da Apex-Brasil, Muricio Borges, fala sobre resultados do Mundial para empresas e do fortalecimento das relações com a China.

 

Foto: Divulgação Portal Brasil Copa do Mundo ampliou relações comerciais para mais de 80 setores da economia

Durante a realização da Copa do Mundo, a Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) promoveu no país cerca de 850 agendas de negócios, mobilizando mais de 700 empresas e entidades setoriais brasileiras e mais de dois mil empresários, investidores e formadores de opinião de diferentes países. Isso resultou em negócios para quase 80 setores da economia brasileira, o que reforça a necessidade de o país oferecer uma infraestrutura de transporte cada vez mais adequada ao seu desenvolvimento econômico.

Na entrevista a seguir, concedida à Revista CNT Transporte Atual, o presidente da agência, Mauricio Borges, fala sobre a realização desses negócios durante o Mundial de Futebol, sobre o potencial brasileiro para se desenvolver mais e também sobre a importância do fortalecimento do comércio e dos investimentos entre China e Brasil. Na opinião de Borges, nessa relação sino-brasileira, há oportunidades em diversos setores que contribuem para diversificar e agregar valor à pauta de exportações do Brasil para a China, como no setor aéreo e de autopeças.

Qual é hoje o foco principal do trabalho da Apex-Brasil?

Em 2014, a Apex-Brasil dividiu em dois momentos a sua frente de ação: o Projeto Copa do Mundo e o lançamento da nova marca: Brasil Beyond (Brasil que vai além), mostrando o país que vai além dos conceitos já estabelecidos (exuberância, biodiversidade, alegria, calor humano, futebol, Carnaval, entre outros). Queremos mostrar o Brasil que inova em diversos setores econômicos e que entrega negócios relevantes para o mundo. No Projeto Copa, realizado ao longo do torneio, foi cumprida a meta de trazer 2,3 mil compradores, investidores e formadores de opinião estrangeiros de mais de cem países ao Brasil para realizar agendas de negócios e acompanhar os jogos do Mundial. Em relação à nova marca, a Apex-Brasil contratou a empresa Tátil para ajudar na tarefa de encontrar os atributos que deveriam ser trabalhados pela agência em projetos realizados em parceria com quase 80 setores da indústria. A Apex-Brasil também ampliou o seu trabalho de capacitação a empresas exportadoras ao iniciar uma parceria com o Centro Brasil de Design. O objetivo é oferecer suporte para o desenvolvimento de produtos e serviços inovadores e mais atraentes. O programa projeta o lançamento de 70 novos itens para exportação até o fim deste ano, como equipamentos médicos e hospitalares, confecções e calçados, móveis, softwares, máquinas e equipamentos e iluminação.

A Copa do Mundo no Brasil foi, então, positiva para a realização de negócios entre diferentes países?

Sim. Tivemos representantes de mais de 700 empresas e entidades setoriais brasileiras se reunindo com 2,3 mil empresários, investidores e formadores de opinião de 104 países. Isso resultou em negócios para quase 80 setores da economia brasileira – muitos contratos de exportação e investimentos estrangeiros que deverão ser aplicados no Brasil. Alguns dos principais ganhos foram o reforço e a consolidação do relacionamento entre essas empresas e seus parceiros de negócios nos mais diversos mercados.

É possível falar no volume de negócios gerados durante o Mundial de Futebol e das características dos principais negócios?

Os números ainda estão sendo contabilizados. A estimativa é superar o resultado obtido durante a Copa das Confederações da Fifa, que totalizou US$ 3 bilhões entre exportações e atração de investimento estrangeiro direto.

Foram quantas rodadas? Elas aconteciam nas cidades-sede?

Foram realizadas cerca de 850 agendas de negócios, que incluem visitas a fábricas, feiras, showrooms e pontos de venda, degustação de produtos, treinamentos, palestras e algumas rodadas de negócios. As reuniões aconteceram em cidades diversas de 18 Estados.

Houve alguma oportunidade importante para o transporte?

Tivemos participação de algumas empresas dos setores de veículos automotores, componentes e indústria naval Os convidados vieram principalmente de países da América Latina, mas também da África e da Europa.

O senhor considera que os representantes dos outros países que participaram das rodadas de negócios durante a Copa se surpreenderam com o Brasil?

Sim. Recebemos vários relatos dos convidados que se disseram surpreendidos com a qualidade dos produtos brasileiros, com o profissionalismo, com o talento desses profissionais e com as oportunidades de negócios no Brasil.

O turismo no Brasil pode alavancar negócios em outras áreas?

O turismo movimenta restaurantes, bares, hotéis, agências de turismo e de eventos, estrutura de transporte, parques, comércio em geral, entre outros serviços. Isso significa negócios, pois reflete a geração de oportunidades de emprego e de empreendedorismo, além do incentivo à inovação e ao conhecimento. Isso sem falar na busca pela eficiência e qualidade nos serviços, uma vez que conveniências são identificadas por meio de críticas, elogios, troca de ideias. O Brasil recebeu, em 2014, mais de 6 milhões de visitantes, segundo dados do Ministério do Turismo, a negócios ou a lazer. Na Copa, levantamento realizado também pelo ministério indica que tivemos turistas de 203 nacionalidades. A maioria (61%) ainda não conhecia o país e elogiou os serviços. Isso significa que grandes eventos podem funcionar como impulsionadores de negócios. Foi exatamente o que fizemos na Copa e o que fazemos no Carnaval. Usamos momentos culturais ou esportivos relevantes para trazer empresários e investidores, além de formadores de opinião, que podem ver de perto como é o Brasil.

Quais dificuldades o senhor observou durante a Copa que precisam ser melhoradas para que os negócios com diferentes países sejam estimulados?

Os convidados do nosso projeto eram tomadores de decisão das empresas convidadas a partir de uma rigorosa seleção, e vieram ao Brasil muito focados na realização de negócios. Cada setor tem suas particularidades, mas não identificamos problemas que pudessem dificultar a concretização de negócios. Ao contrário, o que identificamos foi o fortalecimento da relação comercial entre as empresas a partir de um conhecimento mais profundo do setor produtivo e do relacionamento pessoal.

No âmbito de atuação da Apex, qual foi a importância do encontro dos Brics ser realizado no Brasil e do país receber a visita do presidente da China, Xi Jinping, e de empresários chineses?

Em relação ao trabalho da agência, são dois os resultados positivos. O primeiro deles refere- se a um memorando de entendimento que assinamos com a Agência de Desenvolvimento Comercial do Ministério do Comércio da China (TDB – sigla em inglês). A intenção é aumentar os esforços para termos maior participação das empresas brasileiras em feiras e seminários empresariais na China. Estabelecemos um plano de trabalho conjunto que prevê a troca de informações e a facilitação de entendimento dos empresários sobre os marcos regulatórios bilaterais. Também vamos compartilhar dados a respeito do ambiente de negócios brasileiro. Essas informações são importantes para, por exemplo, produzir estudos de viabilidade econômica para a decisão e a realização de aportes estrangeiros. O outro resultado refere- se à assinatura de um memorando entre os presidentes do Brasil e da China que prevê investimento de R$ 920 milhões da empresa chinesa BYD para a instalação de uma fábrica no Brasil até 2015. A ação faz parte do portfólio de atração de investimentos estrangeiros diretos trabalhados pela Apex-Brasil. O memorando prevê investimentos para a instalação de uma unidade de montagem de ônibus elétricos e de baterias de fosfato de ferro e a implantação de um centro de pesquisa e desenvolvimento em Campinas (SP). E também para a construção de fábrica de células de baterias de fosfato de ferro e para a montagem de ônibus híbridos, que poderá chegar a 5.000 chassis de ônibus.

Como a Apex avalia a relação de Brasil e China, hoje, em relação a comércio bilateral e a investimentos? De que forma essa relação pode crescer?

Conforme a presidente Dilma Rousseff citou ao se reunir com o presidente chinês, Xi Jinping, em Brasília, o Brasil e a China celebram 40 anos de relações diplomáticas. Desde o governo Lula, tais relações têm se estreitado, inclusive com a ampliação de cooperação em áreas diversas e pelo fato de o Brasil ter se tornado o principal destino de investimentos chineses na América Latina. Em relação à Apex-Brasil, o que posso dizer é que aproveitamos essa oportunidade para formalizar, por meio do memorando de entendimento, uma parceria com a Agência de Desenvolvimento Comercial do Ministério do Comércio da China. A meta é realizar esforços conjuntos para incentivar a maior participação das empresas brasileiras em feiras e seminários empresariais na China. Estabelecemos um plano de trabalho conjunto em que nos comprometemos em trocar informações e facilitar o entendimento dos empresários sobre os marcos regulatórios bilaterais. A agência chinesa também vai encorajar a importação de produtos brasileiros de alto valor agregado, promovendo o fechamento de acordos entre setores estratégicos para ambos os países.

Na área de transporte e logística, quais as oportunidades o senhor enxerga no Brasil para que os empresários chineses invistam?

O que posso dizer é que China é mercado-alvo prioritário de 17 diferentes projetos setoriais de promoção comercial que a Apex-Brasil mantém com entidades representativas de diferentes áreas da economia. Entre os setores que atuam em parceria com a agência no mercado chinês, destacam-se carne de frango, carne bovina, carne suína, vinhos, mel, frutas, insumos para ração animal, calçados, couro e outros. No entanto, há oportunidades em outros setores também, que contribuem para diversificar e agregar valor à pauta de exportações brasileiras para a China, como aviões e autopeças. A Embraer, por exemplo, é a empresa com maior valor de exportação de produtos industrializados para a China. Vislumbram-se também oportunidades para o aumento das exportações brasileiras de partes e peças de aviões, que ainda são incipientes.

E como está hoje a atuação dos empresários brasileiros na China? Há espaço e interesse de crescer mais? Em quais áreas?

A China é o principal parceiro comercial brasileiro. Entretanto, a pauta de exportações brasileiras para o mercado chinês ainda é muito concentrada em commodities. Durante o encontro dos presidentes Dilma Rousseff e Xi Jinping, um dos assuntos da pauta foi a abertura do mercado chinês para a exportação de carne bovina. Atualmente, o Brasil é bastante presente no mercado chinês de carne de aves, sendo que mais da metade da importação chinesa desse tipo de produto é oriunda do Brasil. O suco de laranja nacional também é um produto bastante encontrado no mercado chinês. Estudos da Apex-Brasil apontam que há oportunidades para as exportações de café, mel e própolis, vinho e produtos orgânicos. A China também é um promissor mercado de luxo. No ano passado, as exportações de gemas e joias somaram US$ 72 milhões. A China é o maior fabricante de calçados do mundo. Entretanto, o Brasil exporta para lá as peças classificadas no segmento high end. Esses calçados têm alta qualidade, design e preço médio mais baixo que de calçados de luxo de grifes europeias e americanas.

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Cynthia Castro

Agência CNT de Notícias

 

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